O PROCESSO DA INTERVENÇÃO
- Randal Fonseca

- há 6 horas
- 9 min de leitura
Intervenções para qualquer tipo de ameaça nas escolas devem estar direcionadas tanto para um aluno em particular como para qualquer tipo de ameaça e mesmo de violência.

A escola não pode ignorar nenhuma ameaça, pois a audácia tenderá chegar a violência.
Toda ameaça deve ser levada a sério, investigada e respondida, seja ou não plausível. A resposta imediata, clara e vigorosa desestimula os audaciosos e mantém a conformidade.
Três intervenções contundentes incluem:
1. Dissuadir rapidamente todas as ameaças à segurança da escola;
2. Assegurar que todos na escola se sintam seguros;
3. Manter sob intensa supervisão qualquer pessoa suspeita de ameaçar.
Duas abordagens a serem mantidas incluem:
A. Definir e adotar um sistema eficaz para gestão de ameaças;
B. Cooperar com a polícia no processo de resposta a ameaças.

A) GESTÃO DE AMEAÇAS
A escola deverá manter um sistema de informação para que os alunos e funcionários tenham parâmetros consistentes para perceber que os diferentes tipos ameaças estão sendo respondidos de forma rápida e sensata. Também, o sistema deverá manter atenção sobre a atitude complacente ou insegura dos administradores para lidar com as ameaças.
GESTÃO DAS RESPOSTAS
A gestão de resposta a ameaças tem a ver com o nível de confiança de a escola garantir um ambiente seguro. Falhar em manter um sistema comprometerá o programa educacional.
A gestão eficaz das respostas a ameaças inclui desenvolver políticas e manter um banco de dados com informações sobre os tipos e frequência das audácias nas escolas da localidade.

DIRETRIZES DA GESTÃO
A consistência de um banco de dados e das orientações para responder a ameaças precisam demonstrar firmeza e competência gerencial com início no ano letivo; momento que a escola deve informar pais e alunos sobre os métodos da intervenção a ameaças.
Como parte da gestão de controle de ameaças, a escola deve manter um Coordenador com a função explícita de registrar, avaliar e tratar as informações sobre ameaças.
Dentre as diretrizes da gestão, a escola deve incluir a obrigatoriedade de os pais e alunos cooperarem, informando ao Coordenador qualquer tipo de ameaça percebida ou praticada.
Compete ao Coordenador
1. Desenvolver um programa para respostas a ameaças;
2. Ter um sistema de gestão de ameaças;
3. Usar como modelo o sucesso das intervenções em casos anteriores;
4. Manter os funcionários informados e treinados para responder;
5. Contratar especialistas externos.
GESTÃO MULTIDISCIPLINAR
Além de ter um Coordenador as escolas podem formar uma equipe de funcionários que se voluntariem e incluir profissionais, a exemplo dos especializados em saúde mental.

COMPETÊNCIAS MULTIDISCIPLNARES
Um grupo qualificado e experiente precisa analisar as ameaças, comparar com casos anteriores na localidade, consultar especialistas externos, fazer recomendações e emitir pareceres.
Compete ao Coordenador
Considerando que ameaça na escola é crime, um agente da polícia (estadual ou municipal) pode e mesmo deve ser incluído na equipe, ou ser consultado como especialista externo.
Embora a maioria das ameaças possa não resultar em processo judicial, os funcionários da escola precisam de aconselhamento profissional e bem fundamentado sobre quando efetivamente há violação e quais repressões podem ser aplicadas segundo as leis.
Dentre as ações coercitivas a escola deve considerar todas as ameaças sem ignorar o problema. Ações de expulsar ou suspender o aluno por fazer uma ameaça não é suficiente.
A recomendação é de avaliar a ameaça e aplicar uma reprimenda consistente.
Uma ação disciplinar isolada, sem a avaliar a natureza da ameaça ou da intenção do aluno, pode agravar o perigo – por exemplo, se o aluno entender ter sido punido de forma injusta, poderá recalcitrar e planejar uma ação violenta com alunos que compartilhem o sentimento.
B) COOPERAR COM A POLÍCIA
Na maioria dos casos, a decisão de envolver ou não a polícia dependerá do nível da gravidade, segundo os critérios descritos a seguir:
a) Nível baixo
b) Nível médio
c) Nível alto

Nível baixo: uma ameaça neste nível representa pouco risco à segurança pública e, na maioria dos casos, não exigirá uma investigação policial de possível delito criminal. No entanto, a polícia pode fornecer informações em relação a ameaças de qualquer nível.
A intervenção apropriada em um caso de nível baixo envolveria, no mínimo, entrevista com o aluno e seus pais. Se a ameaça for direcionada a uma pessoa específica, essa pessoa também deve ser questionada sobre seu relacionamento com o transgressor, e as circunstâncias que levaram à ameaça.
A resposta como ação disciplinar e qualquer decisão de encaminhar o aluno para aconselhamento ou outra forma de intervenção – deve ser determinada de acordo com a política escolar conjugada com a decisão (julgamento) dos administradores responsáveis.

Nível médio: nessa classificação, na maioria dos casos, a resposta deve incluir a posição (opinião) das autoridades policiais, bem como de outras fontes, para obter informações adicionais e, para talvez reclassificar a ameaça para nível alto ou nível baixo. Às vezes, uma ameaça de nível médio pode até justificar uma investigação de delito criminal.
Nível alto: nessa classificação, a escola deve informar a polícia e o plano de resposta precisa ser ensaiado pela equipe escolar em associação com a polícia, e deve ser implementado.

EXEMPLOS DE AMEAÇAS
NÍVEL BAIXO
Um aluno envia a outro aluno uma mensagem de e-mail dizendo: "Você está morto."
1. Encaminhamento da ameaça.
Os pais do aluno que recebeu a mensagem de e-mail devem levar o caso ao Coordenador.
2. Avaliação do nível da ameaça.
O coordenador categoriza a ameaça como de nível baixo. Os pais podem querer entender o porquê de o coordenador avaliar a ameaça feita por e-mail como de “nível baixo”.
3. Fatores que influenciaram a categorização.
v A ameaça é vaga e indireta: "Você está morto";
v A ameaça carece de detalhes. Ou seja, não diz o motivo, intenção, momento ou local;
v A ameaça não explica os meios a serem utilizados para executar a morte.
4. Detalhamento da avaliação.
A identidade do perpetrador é conhecida;
Antecedentes do perpetrador podem ser obtidos com os professores e família;
A avaliação descreve o aluno perpetrador como imaturo e propenso a tolices.
5. Entrevista com o perpetrador e seus pais.
Deixa evidente que não há acesso a armas de fogo;
Não há nada que indique qualquer tipo de preparação;
Não há nada que demonstre ser uma ameaça real.
6. O alvo da ameaça é entrevistado.
As respostas do aluno ameaçado sugerem que a ameaça é inconsistente.
A ameaça já foi feita quando tivemos outras discussões
Ele fica bravo e diz coisas estúpidas, mas ele sempre supera a indisposição.
7. Conclusão.
Com base no formato (e-mail) da ameaça, a conclusão foi ser de nível baixo;
Um registro na polícia ficará como ação administrativa;
As providências coercitivas ficaram a cargo da diretoria, segundo a política da escola.
NÍVEL MÉDIO

Um aluno grava um vídeo em que há um grupo de alunos atiradores com simulacros de fuzis de cano longo, mirando nos alunos que estão no pátio da escola. No vídeo, os alunos atiradores gritam para chamar atenção, e fazem comentários de extremo mau-gosto.
1. Encaminhamento
O professor leva a gravação ao Coordenador que convoca reunião multidisciplinar.
2. Avaliação do nível da ameaça
A gravação em vídeo foi considerada ameaça de nível médio.
3. A ameaça é específica
Os atiradores apontam simulacros para alunos fingindo ser vítimas;
Não foi possível concluir se os perpetradores pretendiam concretizar a ameaça.
4. Os simulacros e encenações eram perfeitos.
Os gritos eram de ameaças contundentes;
A atuação não deixa claro se é brincadeira;
Os simulacros poderiam ser armas verdadeiras;
Mas, os figurantes estavam rindo;
O "roteiro" sugeria que a ameaça seria executada em local e horário marcado;
Talvez a brincadeira fosse um prelúdio de ameaça real.

Conclusão
Coordenador e equipe multidisciplinar juntaram informações de cada aluno;
Foram adicionadas informações das famílias dos alunos;
Professores adicionaram informações sobre os alunos e suas famílias;
Alunos e pais foram entrevistados;
As armas eram simulacros;
Os alunos não têm acesso a armas reais;
Nenhuma informação elevou o nível da ameaça.
Ressalvas
Na avaliação do vídeo, a ameaça foi reclassificada como nível baixo;
Após a investigação a polícia sugeriu punição administrativa a critério da escola.
NÍVEL ALTO
O diretor da escola de ensino médio recebe uma chamada telefônica às 7h30 da manhã.
O chamador anônimo diz: "uma bomba caseira explodirá no ginásio ao meio-dia de hoje". O chamador acrescenta ter colocado a bomba no armário de um dos alunos do último ano.
"Não se preocupe", diz o chamador, "não é o meu armário. Eu só a coloquei lá porque de onde estou consigo enxergar e saberei se alguém for lá verificar".
1. Encaminhamento
O diretor aciona o Plano de Ação em Emergências da escola.
2. Avaliação do nível da ameaça
Por ser anônima a ameaça foi considerada de nível alto;
A ameaça é direta e específica;
O chamador identifica o tipo de arma que está utilizando;
O chamador é assertivo quanto ao local do ataque e o horário da ameaça;
A descrição da ameaça sugere medidas concretas como o armário e vigilância;
A identidade do chamador é desconhecida;
Os recursos para construir uma bomba caseira são desconhecidos;
3. Impossível avaliar a veracidade da ameaça
A ameaça representa perigo iminente para alunos e funcionários;
A intervenção das autoridades policiais precisa ser imediata.
4. A ameaça é de natureza plausível
Os detalhes são específicos;
A ameaça é de nível alto;
O processo será por crime grave.
Conclusão
O modelo de intervenção a ameaças pode ser refinado com recomendações que incluem: testar, avaliar e desenvolver metodologias e recursos para saúde mental dos alunos.

FATORES RELEVANTES
Personalidade psicopática e narcisista de infratores condenados por tiroteio em escola;
Relevância de ameaças verbais e escritas como referência para previsão de violências;
As dinâmicas escolares como fatores de risco significativos;
A relevância do suicídio entre adolescentes envolvidos em tiroteios em escolas;
As semelhanças das personalidades de perpetradores;
As circunstâncias familiares de atiradores e outros adolescentes violentos;
As semelhanças e diferenças entre atiradores adolescentes e agressores adultos;
Revisar as leis e requisitos de confidencialidade que impedem ou dificultam o compartilhamento de informações entre educadores, policiais e agências de assistência social para projetar a intenção, os meios e a motivação de ato violento.

Ressalvas:
Obter informações sobre a vida do aluno:
(1) personalidade, (2) dinâmica familiar, (3) dinâmica escolar e (4) dinâmica social.
Treinamento dos educadores, administradores e funcionários escolares;
Sensibilizar alunos para comunicar intenções de colegas com a ameaça de violência;
Reiterar que ao permanecer em silêncio é uma forma de cumplicidade;
Reiterar que o silêncio é perigoso para eles mesmos, bem como para os outros;
Reiterar que o "código de silêncio" pode contribuir para a lesão ou morte de colegas.

SUGESTÕES
Criar mecanismos que possibilitem relatar ameaças de forma confidencial;
Reunir alunos e professores para discutir problemas acadêmicos e familiares;
Ajudar os pais a reconhecerem problemas emocionais dos filhos;
Informar os pais onde e como buscar ajuda.
CONCLUSÕES
A violência é uma questão complexa com causas e consequências complexas;
Não existem respostas fáceis e soluções instantâneas;
Não há fórmula simples que possibilite prever quem cometerá um ato violento;
O comportamento violento se desenvolve progressivamente;
Os estágios podem ser observados, mas é preciso treino e querer procurar;
É fundamental responder a todas as ameaças de forma rápida, responsável;
Há que compreender que nem todas as ameaças têm causas e métodos iguais.
RECOMENDAÇÕES
Não basta reagir à mensagem ameaçadora, seja ela falada, escrita ou simbólica;
É preciso avaliar a intenção, os meios e a motivação para concretizá-la;
É plausível considerar que os alunos continuarão a fazer ameaças nas escolas;
Também há que considerar que a maioria nunca as concretizará;
As respostas a ameaças menos graves devem sempre ser de forma ponderada;
As ameaças nas escolas não são apenas um problema das escolas;
A intervenção identifica ameaças de alto risco que são a principal preocupação.

METODOLOGIA DE INTERVENÇÃO
Produzir e arquivar um resumo dos relatórios de investigação;
Manter em arquivo as gravações ou transcrições de entrevistas com agressores;
Arquivar os depoimentos de testemunhas que conheciam os alunos e suas famílias;
Manter em arquivo o histórico dos agressores;
Relatórios e avaliações psicológicas e psiquiátricas;
Avaliar redações, desenhos, rabiscos, poemas, músicas, e vídeos do atirador;
Investigar trabalhos de classe que com informações sobre o atirador;
Analisar o relacionamento do atirador com professores e outros alunos;
Avaliar os relatórios psiquiátricos pré-sentença;
Avaliar a defesa ou a abordagem psiquiátrica da acusação;
Entrevistar policiais e funcionários da escola familiarizados com cada caso;
Obter informações sobre os atiradores e suas famílias;
Configurar o histórico, o ambiente e conjuntura social da escola;
Identificar fatores estressores que possam ter influenciado as agressões.

ANÁLISES SUBSEQUENTES:
Os padrões de comportamento do atirador;
Problemas disciplinares observados ou relatados por funcionários da escola ou pais;
Incidentes de comportamento agressivo e/ou problemas de controle da raiva;
Tipo, estilo e conteúdo da escrita, desenhos, rabiscos e vídeos do aluno;
Preferências em literatura, obras de arte e sites da Internet;
Círculo de amigos, incluindo namoradas, e o papel que representa nesse grupo;
Mudanças no comportamento observadas por outras pessoas;
Declarações do aluno, direta ou indiretamente;
Possíveis informações que obteve de outros tiroteios;
Extensão do planejamento antes do crime;
Comportamento no dia do tiroteio;
Tipos de armas levadas e utilizadas;
Tipo de interação entre o atirador e as vítimas antes e durante o tiroteio;
Comportamento do aluno após o tiroteio;
Resultados do processo judicial.
PROPOSTAS

Produzir anúncio de serviço público para sensibilizar a comunidade;
Incentivar os alunos a relatarem comportamento perturbador;
Parabenizar os alunos que apresentaram informações positivas;
Desenvolver o Plano de Ação em Emergências (PAE) da escola;
Coordenar o PAE com a polícia, serviços de saúde mental e médicos de emergência;
Treinar funcionários para os procedimentos e dispositivos do PAE;
Estabelecer um compromisso entre escolas e agências, definindo as responsabilidades;
Ter um código de emergência para acionar professores e outros funcionários;
Estabelecer um programa que incentive alunos e pais a denunciarem ameaças;
Promover o programa “almoço com amigos da descola”;
Promover o programa "adote uma escola";
Treinar os pais para monitorarem o uso da internet por seus filhos;
Conscientizar sobre o efeito negativo de vídeos violentos para crianças;
Promover a boa relação da escola com as polícias e serviços saúde mental;
Criar cargos especializados para policiais escolares;
Criar ou fortalecer programas de voluntariado de pais nas escolas;
Promover temas relevantes, como comunicação interpessoal, resolução de conflitos;
Promover programas de controle da raiva, lidar com a depressão, tensões familiares;
Utilizar alunos no programa de intervenção;
Buscar mentores voluntários para ajudar os alunos que necessitam de intervenção.
O JGE agradece pelas experiências, percepções e contribuições das autoridades escolares que produziram esse material de inestimável valor para a vida e segurança nas escolas.
Devido a confidencialidade, não pudemos listar as pessoas que contribuíram com o artigo.




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