FALSO SENSO DE PROTEÇÃO
- Randal Fonseca

- há 2 dias
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Pessoas são facilmente enganadas pela percepção de segurança por estarem na multidão e ainda mais quando seduzidas pelo desejo de prazer e diversão.

É essencial colocar em perspectiva a inação dos gestores do setor de lazer e turismo, relativamente ao desenvolvimento de planos de ação em emergências para eventos com potencial de atingir estruturas, embarcações e áreas de diversão que reúnem multidões.
Quando os públicos ficam expostos a eventos extremos, como em 2004 na Indonésia, em que os responsáveis pela segurança, turística por pressuposto, deveriam ter cuidado dos três pilares das atividades sustentáveis — social, ambiental e econômico. Não foi assim.
Desde o início deste século esses três pilares fornecem um roteiro lógico para que os líderes conscientes transformem seus negócios em estruturas resilientes e garantam que as atrações naturais e culturais, como praias, montanhas, clubes noturnos, navios de cruzeiro e festas populares, a exemplo do carnaval, estejam preparadas para lidar adversidades.
A GESTÃO DE MULTIDÕES
Quando um número significativo de pessoas é atraído para um destino de lazer ou turístico que satisfaz a economia local, os gestores precisam ser competentes e responsáveis por planejar soluções que protejam as pessoas dos desafios climáticos, operacionais e sociais.

É fácil perceber que não há hipótese de, rapidamente, remover todas as pessoas de uma praia lotada. Também, em menor escala, não foi possível evacuar um clube noturno em Santa Maria (RS) quando em decorrência de um incêndio, jovens precisaram sair do recinto lotado por uma única porta, e pior, sem placas de sinalização e instruções prévias.
Há de convir que em espaços fechados, como nas aeronaves, os comissários antes da descolagem explicam onde estão situadas as portas e janelas de emergências, todas claramente sinalizadas, como utilizar as máscaras de oxigênio em eventual despressurização da cabine e como lidar com as bagagens de mão, para não obstruir as passagens.
OK! Embora nas aeronaves as orientações são ditas em alto e bom som, muitos passageiros não prestam a mínima atenção, acreditando que já sabem, ou que não precisarão saber.
Mas em uma praia lotada como deve ser a comunicação de segurança? Como alertar uma multidão para, por exemplo, desocupar a praia de Copacabana, diante da ameaça de tempestade de raios ou mesmo de um tsunami? Talvez com placas de sinalização?
Sistemas de som? Qual o tipo de aviso? Para onde deslocar a multidão?

GESTÃO DE DESTINOS
Por que programas de formação profissional estão sendo oferecidos para gerir destinos?
Será que tem a ver com o Tsunami na Indonésia? Ou com as Torres Gêmeas de Nova Iorque, ou com clubes noturnos no Rio Grande do Sul? Ou com réveillon a bordo de embarcações superlotadas? Passeios oceânicos realizados com barcos lacustres?
É lícito reconhecer que cada exemplo acima difere do padrão de alerta adotado pela aviação de passageiros ao redor do mundo. Então, para cada situação é preciso uma estratégia de informação que coadune não apenas com o óbvio, mas até com o improvável.
Os cursos online de gestão de destinos podem ajudar líderes do setor de turismo e lazer.
Há de convir que o número de usuários está além das competências de os gestores tradicionais lidarem com processos de segurança e controle de multidões. Então, esse encargo não pode ser repassado a um ou outro gestor, mas sim aos próprios usuários.
É por esse caminho que a preparação pública para desastres deve seguir. Os comensais precisam ser orientados a conhecer os plano de emergência do local para onde famílias, indivíduos e grupos afins decidam ir. A responsabilidade precisa ser compartilhada. Mas é retórica perguntar se há planos de emergências desenvolvidos pelos municípios para logradouros que reúnem multidões. Planos podem ser produzidos e disponibilizados nos sites das prefeituras. Essa pode ser uma forma da preparação pública para desastres .
Os comensais precisam conhecer por antecipação como ser tanto parte do problema como da solução. A responsabilidade é compartilhada. Multidões não podem culpar "alguém".

AS PRINCIPAIS DIFERENÇAS
As pessoas decidem ir para os locais de lazer sob a premissa de que as condições atmosféricas e geológicas, nos açudes, cachoeiras, lagos, praias, montanhas, cruzeiros marítimos e clubes noturnos e restaurantes estarão favoráveis. No entanto, mesmo que estejam, há que se considerar o fator “multidões”. O aglomerado de pessoas de todas as idades, costumes e procedências, precisa ser colocado na equação das emergências, não apenas pelos políticos de plantão, mas também pelos organizadores e comerciantes.
O processo deve arregimentar todos que tenham interesse no destino das multidões que de uma forma superlativa alterou significativamente o padrão de frequência nesse século.

NÃO É SÓ NO BRASIL
Novos destinos turísticos no biênio 2025/2026, incluíram a Argélia, Quirguistão e Uzbequistão, que estão atraindo multidões sob o discurso da “descoberta”, focando em experiências, como ocorreu na primeira década do século em relação às ilhas: territórios inóspitos que eram presídios, locais de banimento dos indesejáveis, entraram no foco dos descolados que saíram em busca de áreas menos exploradas.
A busca por exclusividade impulsionou o turismo para locais como Andorra, Sudeste Asiático, Ásia Central e Índia como nova fronteira de aventuras. No entanto, o termo “aventura” suscita muito mais do que lazer e diversão, pois inclui desafios, como imprevistos, condição de risco ou emoções que muito fogem à rotina. Do latim, o termo “ad venture” indica o que “vem pela frente" com perigos físicos, relacionamentos casuísticos, empreendimentos incertos, experiências exploratórias, emoção e superação.

Paradoxalmente, a aventura tem sido adotada pela indústria de cruzeiros marítimos, para descrever a experiência de estar a bordo daquelas cidades flutuantes, como se de fato pudesse existir qualquer nível de algo verdadeiramente inusitado que não seja estar aglomerado em ambientes com luzes estroboscópicas e sons bregas, tanto nas piscinas, como nos salões de dança e restaurantes. Aventura? Bem, isso é o se anunciam. E pode ser.

PRESSUPOSIÇÃO DE ESTAR SEGURO.
O que as pessoas acreditam é estar seguro porque há imensa quantidade de gente no local. Esse é um erro fatal que tem sido o endosso errado que conduz aos sinistros.
Não significa “estar seguro” porque há muitas pessoas no local. Não há garantia alguma de segurança a ser endossada pelo fato de haver muita gente junta. Exemplos não faltam de que essa premissa levou enorme quantidade de pessoas à morte ao fundamentar a percepção de garantia da segurança calcada no número de usuários em um mesmo local.
POR EXEMPLO
Na Indonésia, em 2006, cerca de 216 mil pessoas morreram por causa do tsunami. Em Santa Maria (SC), 245 jovens morreram na Boate Kiss por acreditarem que estavam seguros, porque no recinto havia imensa gente feliz, com luzes, músicas e alegria pueril a inebriar.

Na embarcação Bateu Mouche, no Rio de Janeiro, os passageiros foram todos ao mesmo tempo aglomerados no bordo voltado à praia de Copacabana para a assistir aos fogos de artifício da passagem de ano, e muitos morreram afogados.

Em Cabo Frio, a bordo do Tona Galea, mães e crianças morreram afogadas quando a embarcação soçobrou quando todos se aglomeraram no mesmo bordo para evitar se molhar com as espumas das ondulações.

Em Fernando de Noronha, embora à primeira vista possa parecer um local seguro para banhar, e tendo os turistas sido avisados para não irem a Baía dos Porcos sem assistência de guia local, 21 se sentiram seguros por ser um grupo, e desobedeceram. Correntes marítimas traiçoeiras atingem esse local lúdico e, por isso todos os 21 incautos foram arrastados para longe da costa.
Ninguém morreu graças ao pronto resgate efetuado pela empresa de mergulho, que evitou a dispersão dos deslumbrados. A beleza natural de praias, enseadas, montanhas, fogos de artifício, músicas, luzes, estrobos e outros encantos sensoriais, não endossam a segurança de nada e nem de ninguém, em nenhum lugar.
ESSA AFIRMAÇÃO É VITAL.
Registro de eventos súbitos, tanto provocados pelo homem, como incêndios, naufrágios e ruptura de barragens de mineração, ou impactos de causas naturais, como quedas de taludes, ruptura de barragens de mineração, ondas gigantes e súbitas correntezas marítimas, podem interromper a normalidade, tanto ao ar livre ou fechado.
O rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho (MG), ocorrido em 25 de janeiro de 2019, resultou na morte de 272 pessoas que acreditavam estar seguras dentro do restaurante da mineradora como do hotel familiar nas proximidades.
Pessoas são facilmente enganadas pelo senso de proteção de estar em grupo. Esse adágio da manada é verdadeiro tanto ao se lidar com 21, 272, ou 216.000, ou muito mais pessoas.

Nós já vimos. Nós já sabemos. Nós já fomos informados de que se algo igual já ocorreu pode ocorrer novamente. Mesmo estando cientes de que as lideranças falham em criar métodos de alertar veementemente o público e de proteger as pessoas delas mesmas.




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