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ENCANTO DAS SIRENES

  • Foto do escritor: Randal Fonseca
    Randal Fonseca
  • 6 de jan.
  • 5 min de leitura

As ambulâncias têm isenções e privilégios, porque a “vida tem direito a emergência”. Com a força desse axioma, ao abrir passagem, o som da sirene encanta o operador.


O CANTO DAS SIRENES

O termo “sirene” tem sua origem semântica na “sereia”, uma palavra que vem do latim: sirena, e do grego seiren, que significa aquelas criaturas mitológicas com vozes sensuais que atraíam os navegantes com seus cantos, levando os navios a se chocarem contra os rochedos: a sereia.


No sentido mítico, os navegantes ficam enfeitiçados pelo canto das sirenes — e no sentido prático os operadores de ambulância ficam seduzidos pelo soar das sirenes, pois que lhes autorizam de forma irresistível acelerar, subir em calçadas, transitar na contramão, com o potencial de se chocar contra algo; como os navegadores chocavam atraídos pelas sereias.



FORMAÇÃO DOS OPERADORES

O ensino precisa ser específico e educar os profissionais sobre a responsabilidade que assumem em um cenário que difere da navegação mitológica e das lendas da maritimidade.


O operador da ambulância deve resistir ao encanto das sirenes e adotar técnicas seguras.


No entanto, os jovens que operam ambulâncias na nossa “Comunidade Viária” não têm a compreensão de, à despeito da ação dos outros, garantir a segurança no trânsito. Maus hábitos têm sido testemunhados tanto por volição, como por incentivo dos colegas, que sugerem fazer soar as sirenes para obter vantagens, já que podem e porque já viram outros fazendo isso.


É algo estranho, pois fazem a coisa errada, para não ser humilhados por membros da equipe. Difícil de acreditar, mas isso existe. Soar sirenes por influência que levam a colidir contra algo.


Muitos fatores influenciam a conduta dos operadores.


Nos EUA especialistas dizem que alguns operadores de ambulância, antes de se tornarem profissionais da saúde, já eram agressivos, e com desejo usufruir das prioridades no trânsito.



Alguns desenvolveram maus hábitos com a experiência no tráfico caótico das cidades, e se sentiam seguros, pois até então não haviam se envolvido em colisões. Acreditavam que os privilégios e isenções às leis garantiam conduzir sem precisar da exigente cautela profissional.


Os operadores das ambulâncias podem ficar sob a influência tóxica das isenções e cair na armadilha do encantamento da sirene por se sentirem superiores ao transportar pacientes.

Intoxicação pela sirene é "sirenicídio" 


RODAS DA FORTUNA

Como um mantra, os responsáveis pelo setor de serviços de transporte médico de emergência a cada ano prometem melhorar o sistema para torná-los mais seguros. Prometem aumentar os treinos dos operadores e promover a conscientização. Mas o cenário não muda, segue igual.


QUAL A RAZÃO?

As respostas são tantas quanto as causas do problema — e a razão não é única. São diferentes.

Os fatores que contribuem com as colisões e batidas envolvendo as ambulâncias, quando avaliados sob a lupa da realidade, revela o cenário da baixa qualidade crônica da gestão.


ENCADEAMENTO DE FATORES

FATOR HUMANO

Se os dados confirmam que colisões de ambulâncias continuam apesar de todo os esforços empregados, não é de surpreender que o principal fator a contribuir é o humano.


Não é surpresa serem os operadores e a equipe de envio os que sabem o que devem fazer, mas não consideram porque devem fazer, mas sabem o que acontece quando não fazem.

Atualmente as organizações que promovem o ensino dos operadores e membros das equipes de envio estão tentando modificar esse cenário, no entanto, esse esforço tem sido ineficaz, devido às tradições que há trina anos incluem o encantamento das sirenes e as isenções e privilégios concedidos em um trânsito muito diferente de 30 anos atrás.


Embora o “treino” dos operadores possa ser melhorado, sem a “educação social” o ensino e aprendizado é insuficiente, pela clássica diferença entre educação e treino.


FENÔMENO HIPNÓTICO

O encanto das sereias alude à mitologia e isso é o mesmo que ser hipnotizado pela sirene", diz Dr. Clawson, e acrescenta: "o operador vai cada vez mais rápido,” e isso é um tipo de efeito hipnótico causado pela adrenalina.


O encanto da sirene é a “Síndrome da Sirenização”.


Sair do estado hipnótico não é uma habilidade que a pessoa consegue fazer sozinha. A solução é resistir ao encanto é treinar para se manter calmo, ao operar um veículo com objetivo de salvar vidas, como uma criança se afogando, ou pessoas presas em ferragens.


Infelizmente, é nessas situações que os operadores justificam exercer os privilégios da lei. No entanto, devido ao estresse a atitude autoritária atua produzindo a visão em túnel.


"A visão em túnel consiste no estreitamento muito rápido do foco", diz Ken Mills, PhD, da organização de pesquisa Profile Associates, que estudou as perseguições policiais.


Mills descobriu que qualquer motorista que opere sob estresse, como policiais, bombeiros, operadores de ambulância e até civis em certas situações difíceis – pode experimentar o fenômeno. Embora as ambulâncias não tenham objetivo de perseguir um criminoso em fuga, no qual precisa manter o foco, o estresse da aceleração com objetivo de transportar um ferido grave – produz descargas de adrenalina similares as perseguições.



Levar ao hospital ou acelerar para ir buscar uma pessoa morrendo pode causar a "visão em túnel". Um mecanismo de sobrevivência, conhecido como síndrome de fuga ou luta. É a resposta emocional e física, que aumenta a frequência cardíaca pela liberação da adrenalina.


A BOA NOTÍCIA

Esse estímulo hormonal pode ser controlado com o treino. Ao aprender a manter a calma diante de desafios ou metas, o indivíduo consegue evitar a visão em túnel. Aprender a manter a calma ajuda qualquer pessoa a evitar erros e permite reconhecer os erros de outras pessoas.


QUAL É O CENÁRIO

De forma geral os condutores olham ao redor e observam os retrovisores para identificar de onde e está vindo o som da sirene e tendem a reduzir a velocidade. Com os vidros fechados, música alta ou conversando, muitos motoristas nem se dão conta de que há uma ambulância tentando ultrapassar. Às vezes, explicam ter interpretado que a sirene vinha de uma ambulância transitando no sentido contrário.


No trânsito lento, congestionado, com impedimentos por obras ou veículos quebrados, se não há espaço para dar passagem a ambulância, como os condutores devem saber o que fazer? Qual o treino para essa condição nos grandes centros urbanos? Como é possível que saibam o que fazer quando subitamente a ambulância soa a sirene e exibe as luzes?


Se a ambulância fica colada no para-choque o que se pode supor? O que se sabe é que a maioria das pessoas dirigindo um veículo de passeio dará a preferência, mas infelizmente muitos operadores de veículos de emergência nem dão essa oportunidade, pois ficam colados ao para-choque e além da sirene e luzes fazem soar a buzina a ar.


A cultura de que ambulâncias devem exibir luzes e soar sirene precisa ser examinada.


Os estudos revelaram que a vantagem do tempo ganho com luzes e sirenes é anulada pelo aumento do risco que as ambulâncias assumem ao utilizarem esses recursos ultrapassados.


ESTUDOS REVELADORES

Na Bélgica, um estudo sobre colisões de UTI móveis, constatou que 66% das colisões de trajeto ocorreram enquanto a UTI Móvel estava sem necessidade com luzes e sirenes.  


É importante saber que a UTI Móvel não é ambulância, pois apenas transportam pacientes estáveis, com autorização dos médicos, para levar da UTI de hospital para outra UTI noutro hospital com melhores condições de tratamento disponível para aquele paciente.


Nos EUA, um estudo similar constatou que 69% das ambulâncias envolvidas em colisões com vítimas fatais estavam com luzes e sirenes ligadas. O cruzamento de dados permitiu estimar que a cada ano cerca de 12.000 colisões com veículos de emergência ocorrem como resultado direto do uso de luzes e sirenes e, que cinco vezes esse número são provocados pela ambulância sem ter sofrido danos, mas apenas que causaram o evento.



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