A PRAGA DO PRAGMATISMO
- Randal Fonseca

- há 20 horas
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É comum aos líderes empresariais se outorgarem como “pragmáticos”.

A autodesignação de pragmático tem o objetivo enaltecer o desempenho, algo como um autoprivilegio por solucionar problemas de forma rápida. Para os que se autoconcedem o direito de pragmatizar, o conhecimento científico e filosófico só tem sentido na prática.
NA PRÁTICA
Pouco se investiga sobre o que essencialmente significa, na prática, ser um gestor pragmático. Como regra geral, parece que ser “pragmático” é um adjetivo que o profissional atribui a si, para receber a comenda de “excelência na gestão” na avaliação de desempenho da empresa.
A AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO
Os gestores pragmáticos atribuem valor ao seu próprio desempenho profissional. Para entender melhor é preciso aprofundar sobre o que de fato significa ser “pragmático”.

O PRAGMÁTICO
Geralmente o pragmatismo na gestão revela a competência de uma pessoa para exercer uma função focando diretamente os resultados dentro de um curto tempo. A convicção de ser um gestor pragmático pode levar a cometer erros devido ao excesso de autoconfiança.
Embora o pragmatismo seja focado em resultados rápidos e soluções lógicas, o foco excessivo no que "funciona" a curto prazo pode gerar pontos cegos fundamentais.
O gestor pragmático descarta alertas da equipe por acreditar que sua experiência é a métrica válida. Essa conduta reduz a iniciativa da equipe em sugerir melhorias ou apontar soluções. A resistência à inovação disruptiva é considerada como "perda de tempo".
O TEMPO
No artigo AS VULNERABILIDADES o “tempo” é examinado e explicado como um fator abstrato que se tornou elástico no âmbito das sociedades industriais, ou seja, tem a capacidade de ser dilatado para açambarcar cada vez mais coisas que as pessoas precisam fazer, ou encurtado de acordo com os interesses administrativos.
A capacidade elástica do tempo tem tudo a ver com ser um gestor pragmático, pois pragmatizar é fazer o que for preciso sem gastar tempo.
A dinâmica temporal possibilita que o gestor reduza as complexidades implícitas a decisões, ou seja, diminui a dimensão, mas não a essência.

A ESSÊNCIA
Em sua essência, a cartilha dogmática dos pragmáticos, reza que todos os adjuntos que compliquem uma ação devem ser removidos. A sua administração é orientada por regras e princípios inquestionáveis, pois tem a verdade absoluta e se orienta pela estrita hierarquia.
A essência do pragmatismo pode ser sintetizada com “livrar-se das chatices teóricas”; dos conceitos constitutivos, das baboseiras que não servem diretamente aos fundamentos.
Fundamentos para o gestor pragmático incluem aqueles princípios estruturantes trazidos pelos intelectuais, que na essência são desnecessários, pois é serventia “escolástica”.
O PRAGMATISMO COMO RELIGIOSIDADE
A origem do pragmatismo religioso remonta ao final do século XIX, derivando diretamente do pragmatismo filosófico americano. Essa vertente defende que o valor e a verdade de uma crença ou ideia espiritual dependem das consequências práticas e utilidade na vida.
Atualmente, o termo "pragmático" ganhou roupagem sociológica e eclesiológica, descrevendo o fenômeno de igrejas que adotam uma lógica de mercado para atrair fiéis.

A origem não está ligada a um único fundador ou evento, mas sim à própria evolução das necessidades humanas e a movimentos filosóficos específicos. As sociedades antigas tinham relação pragmática com os deuses: "dou para que me dês".
Filósofos como William James e Charles Pierce propuseram que a verdade de uma ideia se mede pela sua utilidade prática e defendiam que a fé é legítima se produzir efeitos positivos. Diante do ritmo acelerado da vida, as pessoas passaram a buscar respostas rápidas para crises financeiras, emocionais e de saúde.
A DOUTRINA RELIGIOSA DO GESTOR
Para o gestor pragmático as religiões são para os religiosos; as teorias são para os teóricos; as filosofias são para os filósofos e os embasamentos técnicos são para professores valorizarem seus salários e, para alunos comprovarem que aprenderam aquilo que o professor sabe, mas o que realmente importa aos pragmáticos são as soluções e ações rápidas, sem perda de tempo.
Nesse sentido, a religiosidade pragmática tem sido um serviço para satisfazer as necessidades empresariais, considerando que se um tipo de ação ou solução está dando certo, nada de novo precisa ser acrescido: continue a fazer como vinha sendo feito.
O SENTIDO DE PRAGMATISMO
Fundamentando no acima exposto, é lícito perguntar se o sentido de pragmatismo do século XXI é ainda útil aos profissionais que valorizam o poder de seus cargos e das suas ações. Poderíamos afirmar que essas pessoas no cargo de gestor não têm tempo a ser dispendido com teorias inúteis e muito menos se curvam à ética. Esses gestores não aceitam que se sugiram mudanças em suas proposições.
Eles tomam as decisões fundamentando seus passos para alcançar os objetivos, independentemente dos efeitos colaterais relativos ao antiético. A religiosidade pragmática, neste caso, é utilizada para justificar as decisões e ações, e enaltecer o orgulho do gestor que sobrepuja aqueles princípios éticos e formais inconvenientes.
PRINCÍPIOS INCONVENIENTES
Para os gestores que se intitulam pragmáticos, princípios morais e éticos são nada mais e nada menos do que barreiras que precisam ser ultrapassadas com determinação e coragem. Todos os que se opuserem a essa forma de gestão serão taxados como extemporâneos, anacrônicos, desajustados com a realidade das empresas – inconvenientes aos objetivos da visão que criam.

A VISÃO DOS PRAGMÁTICOS
Para os gestores pragmático, ver as coisas só pode ter sentido se alguém conseguir definir exatamente o que é o fator tempo na gestão objetiva que não pensa muito, mas age muito.
Para o gestor pragmático esses aspectos epistemológicos e ontológicos são cretinices que servem para atrapalhar a velocidade da competência prática e justificar o uso dos recursos.
O SENTIDO OPOSTO
Os pragmáticos consideram que erros sempre cobram preços altos, mas a realidade tem demonstrado que a adesão ao que é pragmático causa graves danos às organizações, aos objetivos financeiros e à imagem, não apenas de uma empresa, mas a todo um setor.
Os gestores pragmáticos que prevaricam servem bem aos superiores e são úteis até que algo inconveniente aos líderes aconteça. A partir daí os pragmáticos experimentam do próprio pragmatismo ao terem colocados que responder pelas decisões notáveis que até aquele instante eram convenientes: o setor minerário está entre os exemplos notáveis.
O AUTORITARISMO
O autoritarismo vem emoldurado em um quadro gerencial pragmático. Em síntese, as coisas andarão na linha que precisam andar até que perdas patrimoniais, danos ambientais e vítimas de impactos revelem toda a incipiência da gestão pragmática, colocando as lideranças na posição de prestar explicações para o inexplicável.
AS FACES DO IMPONDERÁVEL
A primeira solução para lidar com erros é demitir o subalterno pragmático, atribuindo-lhe a culpa. Afinal todos os pragmáticos aprendem a ter o seu subalterno pronto para o sacrifício.

Essa é uma das muitas faces do pragmatismo imponderável.
Aquele personagem que o gestor declara admirar e a ressaltar as qualidades, mas que na verdade está ali sendo enaltecido para servir de expiação ao erro, à falha. Assim, de forma implacável o admirado subalterno dócil passa também a ser útil aos discursos inflamados.
SOLUÇÕES PRAGMÁTICAS
Às vezes, o pragmático prefere dissimular e adquire mais de um subalterno pronto ao sacrifício ou terceiriza uma empresa para, estrategicamente, carregar o ônus do erro. Às vezes, toda a diretoria é demitida, escondendo um líder pragmático, para protegê-lo. Isso mesmo, proteger para que esse adjunto não se disponha a prestar testemunhos inconvenientes. Com isso, o pragmático passa a ser ainda mais útil e o pragmatismo viceja, como tem vicejado.
PRONUNCIAMENTOS PRAGMÁTICOS
Outra face do gestor pragmático se revela pelas teorias traduzidas em frases de efeito não muito criativas. São pronunciamentos repetidos a exaustão como os jargões populares. Por exemplo, “o ótimo é inimigo do bom"; “traga-me a sua teoria e eu te mostro a minha prática”. Outros gestores são menos triviais ao fazer citações pragmáticas ao dar créditos a pensadores como Paulo Freire: “Não há vida sem correção, sem retificação” ou “Só na verdade, quem pensa certo, mesmo que, às vezes pense errado, é quem pode ensinar a pensar certo”. Daí tecem elogios a si, com ar de superioridade ou autoritarismo típico.
RESSENTIMENTOS PRAGMÁTICOS
Após execrar sem piedade o subalterno mais “protegido”, os líderes pragmáticos não conseguem evitar os ressentimentos manifestados pelos demais colaboradores que ao comentarem, os definem como “feitores” a serem temidos em vez de admirados.
No ambiente onde os gestores pragmáticos vicejam as fofocas e rumores se multiplicam.
Em vez de construir um ambiente em que a lealdade prevaleça pelo sentimento de confiança, os gestores pragmáticos alimentam a “cultura da competição” em que os colaboradores escabulham a vida dos outros enquanto se atribuem virtudes. Como resultado, as lideranças ficam cercadas por aduladores, abrindo o flanco para falhas. Quando as falhas ocorrem e é de se esperar que ocorram, os pragmáticos se tornam cada vez mais autoritários; literalmente gritam, esbravejam, batem os pés no chão, causam estresse generalizado para chamar a atenção por um lado e desviar por outro.
Os pragmáticos não nutrem remorsos ao “esmagar” – cancelar unilateralmente contratos – humilhar prestadores de serviços e consultores. Eles assumem atitudes grosseiras, desrespeitosas – que é traço comum entre os pragmáticos.

PROFISSIONALISMO
O desempenho, o trabalho em equipe e a ética – estão sempre por último. O que importa são os resultados em um dado momento, independentemente dos processos integrados. Eles não se mostram interessados na melhoria continuada e desenvolvimento pessoal dos membros, muito menos são interessados nos problemas ou conflitos de origem psicológica e patológica que sua forma de gestão produz, e que se revelaria pela produtividade.
EXCELÊNCIA
O gestor pragmático tem excelência em produzir pressão, em ofender e desmerecer, se os resultados que ele estabeleceu para uma meta de produtividade não forem alcançadas.
O gestor pragmático tem, por vezes, orgulho de seu baixo nível de escolaridade. Quando precisam reconhecer a importância dos programas de treinamento de seus funcionários, reiteram que, “treinamento é desperdício de tempo e de dinheiro”. Entendem que os trabalhadores precisam antes demonstrar produtividade.
O gestor pragmático não aceita que alguém sofra lesão no local de trabalho. Acredita que basta gerir documentos exigidos por leis para implementar os níveis de segurança.

O gestor pragmático atribuirá a culpa de qualquer incidente no trabalho à própria vítima.
Para ele pode ser proposital ou criminal, com intuito de prejudicar o setor. É comum que a vítima após se recuperar é levada aos demais setores para descrever os seus “erros”.

A humilhação é para demonstrar aos demais o que acontece se se expuserem a lesões.
O gestor pragmático tem como base um comportamento negativo, arrogante e por causa dessas características estressantes eles próprios desenvolvem patologias.
O gestor pragmático incentiva os desatinos e discórdias entre os membros de sua equipe. Uma característica básica reside em não conseguir estabelecer parcerias duradouras. Todos que o cercam desconfiam uns dos outros. E, por não perceberem os problemas escondidos sob a luz da dissimulação, não contratam ninguém para tratar essa patologia gerencial.
O gestor pragmático pressupõe que as pessoas devem saber fazer o seu trabalho sem que seja necessário fornecer treinamento. Os profissionais devem melhorar a produtividade sem que precisem estar motivados, sem serem envolvidos com os objetivos.
O gestor pragmático assume que o trabalhador é contratado para ser produtivo, e se não for é porque optou por ser logo demitido; essa é uma das razões pelas quais em muitas organizações o recrutamento e seleção é uma tarefa infindável.
O gestor pragmático falha em perceber quanto a rotatividade representa para a corporação. Neófitos não produzem como os experientes, e os mais antigos deixam a empresa ou são demitidos porque não se alinham com os moldes dos “feitores”
A utilidade do pragmatismo nas empresas segue sem dar importância a valores individuais, habilidades e engajamento dos trabalhadores com os objetivos financeiros da organização.

É nesse sentido que as melhores práticas indicam a antevisão dos gestores programáticos.
A GESTÃO PROGRAMÁTICA FOZ O INVERSO
A gestão programática opera mudanças na corporação corrigindo desvios significativos. É lícito reiterar que desvios de na produção nem sempre refletem falha. Mas a gestão pragmática fica caracterizada ao persistir em canalizar esforços apenas para “condicionar” e fazer com que os fatos fiquem inseridos em uma explicação plausível – acobertados. Isso bastará para a gestão programática demonstrar a natureza de seus líderes doentios – extemporâneos.
Nada no século 21 fica escondido. Diante das tentativas de camuflar a percepção aumenta e aponta os efeitos contrários ao interesse pragmático que já é bem-conhecido.
ENTENDA O PRAGMATISMO
Na ética pragmática basta definir o que é bom, louvável; o que deve ser procurado será aquilo que for útil. Logo, se alguém perguntar se Deus existe? A resposta pragmática será afirmar que se essa crença lhe é útil, se isso te faz bem, então continue acreditando nisso.
O PROBLEMA
Muitas organizações, seguindo um modismo, abandonam princípios programáticos eficazes para aderir unilateralmente ao utilitarismo: manter àquilo que estiver á dando “certo”.

A vulnerabilidade ao perigo do pragmatismo está em não adotar a gestão programática.
A visão pragmática no meio evangélico de onde surgiu, contaminou o pensamento eclesiástico e fez com que seus protagonistas deixassem de avaliar o ministério por ter promovido nos homens a fidelidade em relação às escrituras. Então, os bons ministérios são agora os grandes ministérios – os que deram certo sob o ponto de vista utilitário. No entanto, nem tudo que é grande é saudável, o câncer, por exemplo, ao crescer mata.
É muito comum encontrar lideranças empresariais afirmando que “apesar de saber do risco, concordamos que está dando certo” e por isso continuaremos nessa corrente pragmática.
O pragmatismo resulta da soma das ideias de todos os efeitos imaginários atribuídos a um objetivo, que passa de uma ideia para um efeito prático qualquer – por exemplo quando os líderes decidem não ser necessário implementar as provisões do Plano de Ações em Emergências (PAE), por acreditar que, uma vez estando no papel, estando redigido, as ações ocorrerão sem que seja necessário dispender tempo e dinheiro. PAE escrito já basta.




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