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A AMÉRICA DE AMÉRICO E O BRASIL DE CABRAL

  • margarete2331
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Atualizado: há 9 horas

ARQUEOLOGIA DO NAUFRÁGIO DE IDENTIDADE OCORRIDO EM 1503.

A partir de 1507, o vocábulo América foi adotado pela maioria dos eruditos e, em 1570 se sobressaiu com o Atlas “Theatrum Orbis Terrarum,” de Ortelius, um discípulo de Mercator.


America of Amerigo or Brazil of Cabral: archeology of an identity shipwreck.


Randal Fonseca, 1988                                                                 Seán McGrail, 1984

Quando nos referimos com propriedade ao passado, (...) somos chamados de eruditos”


INTRODUÇÃO

Reflexões aprofundadas sobre a Campanha de Busca e Localização do Primeiro Naufrágio no Brasil (1503), registrado por Américo Vespúcio, quando da última viagem lusitana de reconhecimento da costa.


A pesquisa arqueológica suscitou uma revisão historiográfica com intervenções náuticas e subaquáticas realizadas por Randal Fonseca, em Cabo Frio e Fernando de Noronha.


A METODOLOGIA DA PESQUISA

A referida Campanha de Busca e Localização do naufrágio se baseou em estudos de Márcio Werneck da Cunha (1944 - 2004) que, como historiador, dedicou sua vida aos estudos historiográficos das viagens de Américo Vespúcio ao Brasil.


Por um lado a busca pelo sítio do naufrágio revisou as possíveis rotas náuticas de aproximação da Nau na noite de 10 de agosto, e por outro lado cumpriu a metodologia arqueológica orientada a cultura material, eventualmente remanescente desse episódio.


A Campanha trouxe à luz a intencional construção da identidade do “Brasil de Cabral” e fez um contraponto com a revelação histórica do continente por Américo Vespúcio.


A CONTROVÉRSIA

Vale ressaltar que o Projeto “América de Américo OU Brasil de Cabral” só foi possível devido a determinação do mergulhador Randal Fonseca, que se posicionou à frente das etapas iniciais de campo realizadas em Cabo Frio (1983) e, posteriormente concluídas no arquipélago de Fernando de Noronha (1992).


Os estudos historiográficos realizados por Cunha na década de 1980 foram associados a investigações submersas na entrada do Canal de Itajuru, pela mergulhadora da AQUA-RIO, Lola Fritzsche, desarticulada da Arqueologia brasileira. O resultado da Campanha, foi apresentado por Randal Fonseca na SAB 1993 – João Pessoa, PA.


Fonseca reiterou diante da Sociedade de Arqueologia que a “navegação ultramarina” e a “Arqueologia Subaquática” foram temas investigados como um conjunto inseparável.

A abordagem de Fonseca se contrapôs ao que tradicionalmente o universo arqueológico, excluía dos estudos, pois a “navegação” não era ciência para a Arqueologia erudita.

Segundo especialistas em estudos arqueológicos marítimos e historiografia da navegação isso constitui um “fenômeno de exclusão temática”, que não ocorre apenas no Brasil.


Essa separação decorria de uma certa antipatia geral pelo tema náutico, devido as diferenças existentes entre homens do mar e da terra (MCGRAIL, 1997; BLOT; 1999; que infelizmente impedia a conjugação desses estudos.


Em 1985 o Titanic foi localizado e, em 1986 as investigações reforçaram a posição de Fonseca, no sentido de unificar os estudos arqueológicos marítimos com a historiografia da navegação. De fato isso foi feito em F. de Noronha, utilizando sistema de detecção trazido pelos arqueólogos dos Estados Unidos, após a queda do Muro de Berlim em 1989.


O suporte de Craig Benson e Charles Green da Universidade de Syracuse contribuiu para localizar os vestígios da Nau de 1503, sendo marco histórico na Arqueologia Subaquática.


AS INVESTIGAÇÕES HISTÓRICAS

Considerando a questão da identidade “cabralina” consagrada no Brasil e, considerando a pouca importância atribuída pela historiografia tradicional relativamente aos relatos de

Vespúcio, o não acadêmico Márcio Werneck da Cunha, defendeu sua posição científica. Esse trabalho inédito rendeu a Cunha o título de Doutor Honoris Saber pela URJ.


Desde o início da década de 1980, Cunha colocara em curso uma pesquisa histórica que deixava em aberto a investigação arqueológica no fundo do mar, para comprovação de fatos deturpados, em face das políticas ultramarinas das potências europeias da época.

A necessidade da comprovação material criou a demanda arqueológica sem precedentes.


A PROPOSTA

Enquanto a Arqueologia brasileira se dedicava quase que exclusivamente ao período pré-cabraliano, havia poucas ou mesmo raras exceções para o período pós-conquista europeia.


Cunha aproveitou a oportunidade de estudar documentos históricos pouco apreciados pela Historiografia Oficial, e foi além, ao propor a investigação em campo por meio de uma Arqueologia Subaquática, contradizendo e espancando aquela “surrada” ideia de que a Arqueologia Submarina ser apenas ferramenta auxiliar da história trágico-marítima.


Os registros materiais das viagens de Vespúcio, e em particular da Quarta Viagem, segundo Cunha, estariam enterrados no substrato das águas do Canal Itajuru no Cabo Frio (RJ), e em algum lugar no fundo do mar no entorno do arquipélago de Fernando de Noronha.


A SOMA DOS REGISTROS

Então, os dados materiais que viessem à luz por meio da arqueologia submarina, poderiam definitivamente consubstanciar as informações descritas por Vespúcio, tanto nas cartas aos familiares como nas “adaptações impressas” (GUEDES, 1975 apud CUNHA, 2004:56).


Segundo Guedes (1975), “as adaptações impressas” eram nada mais do que descrições genéricas e romanceadas capazes de interessar a um público ávido por notícias exóticas.


As informações estavam a entrar no imaginário mundial” (CUNHA, 2004:56) como resultado das Grandes Navegações do século XVI: período no início liderado por Portugal e Espanha.


VIAGENS DO DESCOBRIMENTO

Vale ressaltar que neste universo dos homens do mar, as viagens dos “descobrimentos” contaram com a participação de marinheiros eruditos, como Vespúcio, capazes de produzir dados científicos significativos que (felizmente) não foram menosprezados pela ciência.


Guedes (1975) enfatizou, por exemplo, que embora Vespúcio nas viagens de 1499 – 1500, não soubesse determinar a latitude pela altura meridional do solar, aprendera a fazê-lo a tempo de empregar seu novo conhecimento nas navegações:1501/1502 e de 1503 /1504. 



A TEMÁTICA “AMÉRICA DE AMÉRICO”

O título do livro escrito por Marcio W. da Cunha, “América de Américo”, foi inspirado na produção de informações originais do navegador Américo Vespúcio sobre o Brasil, portanto passou a ser um contraponto a Carta de Caminha que apenas legitimou a “descoberta” de novas terras por Cabral. Cunha justifica que Cabral ficou limitado apenas a uma pequena porção do litoral brasileiro, enquanto Vespúcio foi além, chegando até a região do Lagamar.


Dessa forma, e com razão, Américo Vespúcio serviu de inspiração à toponímia América.


AS CARTAS DE VESPÚCIO

As informações contidas na “Lettera di Amerigo Vespucci delle isole nuovamente trovate in quaro suoi viaggi”, se tornaram públicas em Florença (1505-1506) e, mais ainda quando as cartas endereçadas ao compatriota Pero Soderini foram traduzidas para o Latim.


O então cartógrafo alemão Martin de Waldseemüller inseriu os dados na obra de própria autoria “Cosmographie Introductio”, onde o tedesco afirmou que o continente foi denominado de “América” porque foi Vespúcio que o revelou (CUNHA, 1985).


Martin de Waldseemüller explica o motivo:

Hoje, estas partes da terra (Europa, Ásia e África) já estão perfeitamente exploradas e uma quarta parte do mundo foi descoberta por Américo Vespúcio (...); não vejo motivos para que não se chame, do homem sagaz que a descobriu, Amerigen (...) e, pode-se esclarecer exatamente a situação desta terra e os costumes de seus habitantes pelas navegações de Américo Vespúcio” (CUNHA, 2004).


“Vespúcio revelou um continente (WALDEESMULLER, 1507)” e, segundo Rosin (1979) “um mundo novo descoberto fez escola nos principais centros culturais europeus durante as primeiras décadas do século XVI” (CUNHA, 2004:65).



A historiografia ibérica, no entanto, abdicou da toponímia “América” para adotar a referência de Índias Ocidentais e, somente declinou desta designação recalcitrante no século XVIII, quando no mundo já se encontravam consagrados os feitos de Vespúcio.


Sob a ótica espanhola, as "Índias Ocidentais", o atual continente americano, era percebido como fonte de riqueza: um desafio civilizacional e um território de expansão da fé católica.



A NEGAÇÃO A VESPÚCIO

A historiografia portuguesa atribui o “descobrimento” da outra borda do Atlântico a Cabral, renegando Vespúcio – talvez pela origem florentina do navegador –; assim como, as referências espanholas atribuem a Colombo o “achamento” das novas terras.


No entanto, essas são as terras que perfazem o continente americano (de Américo).

Paradoxalmente, sob a ótica da identidade, se tornou necessária uma abordagem descomprometida das vertentes políticas que envolviam a história tradicional; aquela sobre um território construído pelas revelações, em primeira mão, de Vespúcio (CUNHA 1981).


A IMPORTÂNCIA DE INSISTIR

A insistente proposta de investigação documental e arqueológica voltada para as questões “vespucianas”, proposta por Cunha, teve início em 1981 na Cidade de Cabo Frio, tendo com Fonseca, em 1985, se estendido ao arquipélago de Fernando de Noronha (PE).


Foram esses dois pontos de apoio que consubstanciaram a tese de comprovação da Quarta Viagem de Américo Vespúcio, rejeitada pela historiografia tradicional.


 Vespúcio, na ilha de Fernando de Noronha, deixou pistas evidentes que contribuíram com a confirmação material, pois em seu relato da viagem ele descreveu o naufrágio da Nau comandada por Gonçalo Coelho, que capitaneava a esquadra de cinco naus em 1503.


Diz a Lettera escrita a 4 de setembro de 1504 por Vespúcio em Lisboa:

“(...) foi esta ilha para a armada malfazeja: porque saberá V. M. que por mau conselho do nosso capitão-mor qual ele perdeu sua nau, dando com ela em um escolho e se arrombou na noite de São Lourenço, que é a 10 de agosto, afundando. Dela não se salvou cousa algum senão a gente. Era uma nau de 300 tonéis na qual ia todo o importante da frota (...)” 


Julga-se que a Lettera foi impressa por Gian Stefano di Carlo di Paiva para o livreiro Florentino Piero Pacini, em 1505 – 1506. Dessa primeira e única publicação só existem três exemplares:

  • Uma no museu Britânico;

  • Uma na Biblioteca Palatina de Florença;

  • (Uma na Biblioteca da Universidade de Princeton


A Universidade Princeton publicou fac-símile em Vespucci Reprints: text and studies (1916).


É IMPORTANTE RESSALTAR

Embora existissem argumentos persuasivos baseados em evidências textuais indiretas, podia ocorrer que não fosse possível produzir numa investigação arqueológica com as comprovações materiais suficientes para mudar a insistente historiografia “cabralina”.


Tanto a historiografia, como a etnografia comparativa podiam indicar algumas reflexões com relação às identidades, mas a Arqueologia Subaquática pretendida por Fonseca (1985) poderia, com o auxílio de outras ciências, trazer respostas que contribuiriam para ajudar a mapear os "caminhos marítimos" que haviam sido seguidos por esses navegadores, e então, atribuir-lhes os méritos devidos conforme suas mais prováveis participações nas injunções históricas que deram origem ao Novo Mundo.


DISCIPLINAS QUE VIERAM EM SOCORRO

Neste contexto interdisciplinar foram aditadas informações publicadas em 1973, encontradas no American Museum of Natural History Novitates: no artigo "Amerigo Vespucci the Rat of Fernando de Noronha: a New Genus and Species of Rodenia (Muridae: Sigmodontidae) from Volvanic Island Off Brazil´s Continental Shelf".



A investigação conduzida por Olson A. Roppa, do American Museun Novitates, e assistida pelo Instituto Oswaldo Cruz com agradecimentos a Dra. Maria Claudia L. Malabarba do Museu de Ciências de Porto Alegre, objetivou o trecho da Lettera em que Vespúcio relata seu desembarque na malfazeja ilha, em uma enseada “favorável para “fazer surgir as naus”, e procurar por víveres e água, onde em Latim (traduzido para o Inglês) se lê:


“[The] island we found uninhabited, and it contained plenty of threes, and so many birds, both marine and land, that they were without number … and we saw no other animals except very big rats and lizards with two tails, and some snakes. (Emphasis ours: translation of the original Italian text from Branner (1888:869)”.


UM TRECHO DA LETTERA

Os geógrafos assumiram que a pequena ilha descrita por Vespúcio, situada a 3 graus ao Sul do Equador era Fernando de Noronha (BRANNER, 1888; RIDLEY, 1888), mas a corrente historiográfica brasileira considerava questionável ter existido esta Quarta Viagem de Vespúcio ao Novo Mundo, desacreditando o seu desembarque em Fernando de Noronha e seus relatos sobre a vida animal, principalmente no que toca a existência de um mamífero descrito como um “enorme rato” (ROPPA, 1999).


A CONFIRMAÇÃO IRREFUTÁVEL

Durante uma expedição à Fernando de Noronha realizada em 1973, Roppa descobriu fosseis de vertebrados nas dunas antigas situadas na extremidade Leste da Ilha de Fernando de Noronha (a principal). Dentre o material resgatado, era abundante e bem preservado os ossos de uma espécie inusitada de roedor sigmodontine, com dimensões de moderada para grande e pertencente a uma variação de Oryzomyni da América do Sul.


Este roedor extinto, foi classificado como um novo gênero e espécie, e catalogado com primazia pelos bio-paleontólogos como “Holochillus (Holoceno) Noronhomys vespucii”. 


O achado, portanto, comprova a existência de uma espécie endêmica de Fernando de Noronha e corrobora com os detalhes biológicos creditados a Vespúcio por ocasião da quarta viagem, dando, de certa forma, autenticidade aos relatos.

Exemplares dos fósseis do Rato Saltão são atualmente mantidos no:

  • Museu da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul;

  • Paleobiologic department do National Museum of Natural History, New York City; 

  • Field Museum of Natural History, Chicago;

  • National Museum of Natural History, Smithsonian Institution, Washington D.C.


ARQUEOLOGIA NO AMBIENTE INSULAR OCEÂNICO

Na circunstância em que se encontrava a política governamental brasileira no início da década de 1980, à mercê da ditadura militar, a proposta de estudos a partir de documentos que conduzissem e pudessem produzir provas materiais, simultaneamente nos dois polos da costa brasileira visitados por Vespúcio (Fernando de Noronha e Cabo Frio), tornara-se uma tarefa titânica (CUNHA, 2004).


Além da política militar, foi necessário lidar com o "imaginário coletivo" da população insular que preferia acreditar que as buscas submersas pelos vestígios da Nau de 1503, estivessem direcionadas a resgatar os tesouros que estavam a bordo da Capitânia.


Esse fetiche de "tesouros" a bordo de uma viagem exploratória, foi muito agravado quando no dia 20 de julho de 1985, Mel Fisher localizou o naufrágio do galeão espanhol Nuestra Señora de Atocha, afundado em 1622 após um forte furacão na costa da Flórida.


O fetiche popular não considera a História e coloca naufrágios num só pacote imaginário.

Em Noronha, a narrativa era de o "Tesouro de Vespúcio" está sendo levado para os EUA.


SERIAM VESTÍGIOS, APENAS VESTÍGIOS

Os vestígios pretendidos, tanto da fortaleza-feitoria de Cabo Frio, como da nau Capitânia de 1503 em Noronha, foram comprovados por meio de uma arqueologia subaquática e pelos fósseis do roedor, conduzidas com a oficialização governamental brasileira, chegando a inserção dos "navegadores descobridores” no panteão dos heróis nacionais.


O “Projeto de Busca e Localização do Possível Sítio do Naufrágio da Capitânia de 1503”, intitulado “América de Américo”, iniciado em 1983 na cidade de Cabo Frio, foi implementado no arquipélago de Fernando de Noronha, e demonstrou como o projeto “Brasil de Cabral” foi ideologicamente construído e sustentado pelos eruditos, autoridades e historiadores, que não podiam ser questionados pela tradicional historiografia lusitana.

O livro América de Américo, foi publicado um pouco antes do falecimento de Cunha (2004), que nele descreveu as peripécias vividas em Cabo Frio e em Fernando de Noronha, nas quais, em ambas, Randal Fonseca como mergulhador interessado e altruísta, se mostrou desinteressado dos daqueles projetos e rejeitou ser subsidiado pela recente Lei Ruanet.


Vale dizer que a sensibilização pela temática e, por viver e conviver no universo dos homens do mar, a condução do trabalho documental de Cunha motivou Randal Fonseca a empregar recursos financeiros e operacionais próprios, para Cunha conduzir as pesquisas historiográficas, e sustentar as custosas investigações subaquáticas pela AGUAS CLARAS.


Essas empreitadas não contaram em nenhum momento com a participação da Arqueologia brasileira que, paradoxalmente e confortavelmente preferiu se manter à margem, fixando-se na sua contumaz visão “agrocêntrica” (RAMBELLI, 2003).


DETALHES DAS INVESTIGAÇÕES SUBAQUÁTICAS

As primeiras imersões foram realizadas em 1983 pelos mergulhadores da AQUA-RIO Centro de Atividades Subaquáticas de Cabo Frio, na entrada da barra do Canal de Itajuru, em busca de vestígios de navios seiscentista que, de acordo com as pesquisas documentais, teriam demandado aquele abrigo natural, em face do posicionamento estratégico de duas ilhas que dão perenidade ao braço de mar com profundidade navegável.

O local (acima) teria sido ideal para abrigar embarcações – ancoradouro natural –, devido às suas excelentes condições geomorfológicas. O problema é que em 1983 a área já estava sendo assoreada pelos dejetos lançados na Lagoa de Saquarema. Mas, a partir de cálculos sobre a alteração de profundidade da enseada, desde o século XVI, foram traçados os possíveis perfis da antiga boca da barra lagunar e iniciada uma série de prospecções. Estas, realizadas por meio da remoção do sedimento arenoso, através com uso de "venturi" que revelou a localização de aglomerados de pedras, que pela forma fariam parte do lastro das embarcações seiscentistas que estiveram por lá (RAMBELLI, 1998; 2002), (CUNHA, 2004:34).


Outras investigações historiográficas conduzidas por Cunha traziam gradativamente à luz das expectativas os elementos que justificavam acreditar que o naufrágio da Capitânia de 1503 poderia ser comprovado se os vestígios fossem localizado em Fernando de Noronha.


Foi daí que se deu o apelo a Arqueologia Subaquática, ou algo similar, pois, o conceito dessa Arqueologia era inexistente em 1983, pelo menos oficialmente: (RAMBELLI, 2002).

Somente através do mergulho o projeto poderia produzir provas materiais do naufrágio, que somariam àqueles da Boca da Barra do Canal de Itajuru e consubstanciariam os relatos da Quarta Viagem, colocando em xeque a historiografia tradicional dos eruditos da época.


HISTÓRIA, CIDADANIA E AMBIENTE NA ARQUEOLOGIA PÚBLICA

Em Fernando de Noronha, as autorizações para realizar as pesquisa submarina foram todas obtidas conforme as exigências legais vigentes, gerando farta documentação oficial em nome da Fundação Américo Vespúcio, e das duas empresas executoras: Águas Claras Produções Submarinas Ltda. (Fernando de Noronha, PE) e Uma Cultural (Cabo Frio, RJ).


Com base na documentação, o projeto América de Américo foi encaminhado, pelo então Ministro Sérgio Telles das Relações Exteriores, à vice-Presidência da Comissão Nacional Espanhola para o V Centenário – Doc: 134, SADC L00 236, de 02/07/1992, onde se lê:


“Urgentíssimo: (...) trata-se de iniciativa pioneira em matéria de investigação arqueológica submarina a ser desenvolvida em Unidade de Conservação com tecnologia de pesquisa compatível com a proteção ambiental”


O resultado da Campanha de Busca e Localização do Naufrágio de 1503 integrou também, com destaque, o elenco de ações científicas, culturais e ambientais, encaminhado pela então administração do arquipélago à ECO 1992, Rio de Janeiro, e, no ano seguinte, os detalhes técnicos foram apresentados por Randal Fonseca no Congresso da SAB (1993) em João Pessoa, Paraíba, e em 2014 na FERNAVE em Lisboa, com a Editora RTI-PORTUGAL.

Foi possível demonstrar nas esferas oficiais que a Campanha tinha notória consistência na forma e no conteúdo da pesquisa historiográfica e de investigação submarina, mas ainda encontrava resistência dentre os empedernidos detratores, mesmo após ter sido validada.

Foi então que a difícil questão vespuciana encontrou a solução de uma forma simples.


CORTAR O NÓ GÓRDIO

A expressão "cortar o nó górdio" é usada quando um problema difícil não tem solução pelo caminho simples. Então, o Nó da Campanha foi desatado com os fosseis dos ratos e, a comprovação teve um desfecho com valor inestimável para o povo noronhense.


NA LETTERA VESPÚCIO RELATOU(...) “[A] ilha encontramos desabitada, e ela continha muitas árvores, e profusão de aves, tanto marinhas quanto terrestres, que eram incontáveis … e nós não vimos nenhum outro animal exceto ratos muito grandes e lagartos com duas caudas, e algumas serpentes.[Texto traduzido do original italiano de Branner (1888:869)].


A IDENTIDADE DO POVO NORONHENSE

Para entender o "valor" da identidade de um povo é preciso conhecer e reconhecer a sua história. No caso da população de Fernando de Noronha, quando lá chegamos em 1985, encontramos pessoas que se ressentiam das suas origens associadas ao presídio.


É IMPORTANTE LEMBRAR

A estrutura de defesa do arquipélago é atribuída ao engenheiro espanhol Diogo da Sylveira Vellozo e, após terem sido ativadas foi registrada uma significativa redução de invasões às terras continentais do Brasil. Os invasores já não mais podiam dispor do ponto de apoio, daquela benígna "estação de repouso" que Noronha oferecia, para que pudessem "afiar as espadas, obter alimento, água e restabelecer as energias" antes de invadir o Brasil.

A estrutura de defesa foi utilizada como colônia penal para banimento de indesejáveis da Coroa Portuguesa, a exemplo tanto de militares insubordinados, como criminosos comuns.


EFEITOS DELETÉRIOS

Os residentes com origem nas famílias dos guardas da prisão, como do descendente dos prisioneiros ficaram estigmatizados quanto, criando um sentimento de baixa autoestima.


O fenômeno que a Arqueologia Náutica produziu no Círculo Polar Ártico.


A VISÃO DO "AI-QUE-LINDO" OFUSCOU A HISTÓRIA

À parte da relevância que as festividades em SEVILHA 1992 suscitavam, interesses casuísticos estavam dando maior visibilidade às então "belezas ambientais" que, à época, as imagens submarinas de Fernando de Noronha produziam no público leigo e acadêmico. Diante da visão do "ai-que-lindo" o conceito "Ciência e Cultura" se tornou irrelevante.


Os elementos obtidos em campo, que concorriam para produzir provas materiais sobre a viagem do florentino, em 1503, não fora suficiente para encetar a almejada discussão proposta por Cunha: a possível identidade de um “Brasil americano”. O mundo mudou.

A visão de mundo mudou. Os interesses pela História arrefeceu. A visão do paraíso venceu.


A HISTÓRIA ÉPICA E O CONSUMO LÚDICO

Vale ressaltar que consumo lúdico é o ato de adquirir produtos, serviços ou conteúdos cujo propósito é o entretenimento, a diversão, o prazer ou o lazer, e não a necessidade básica.

Ou seja, é o consumo impulsionado pelo desejo de vivenciar experiências sensoriais, emocionais ou recreativas em subdimensões específicas da experiência comportamental.

A PURIFICAÇÃO

Sendo uma comunidade insular, herdeira de uma história trágica, o arquipélago de Fernando de Noronha entrou no cerne dos debates que tratam dos locais privilegiados, aqueles espaços que se desenvolvem apesar das maldades, das perfídias de um passado, e a despeito das evidências do inconcebível sofrimento humano, se torna objeto de desejo.


Fernando de Noronha tem hoje sua essência social revestida de um manto vestal que esconde o presídio que foi conveniente à Portugal e, portanto, isento das ignomínias. Será? 

Este é um aspecto essencial que, para ser percebido e aproveitado, dependerá do filtro a ser aplicado a visão do visitante, apartada por um prisma ecológico, purista da história.


Depois de cinco séculos as áreas insulares estão agora destinadas a operar a redenção, como uma caldeira de depuração para transformação social com dimensões multiculturais.


Num sentido mais profundo se enceta que ao mergulhar no mar oceânico e vivenciar o caráter específico da ilha, dos seus atributos naturais e dos seus habitantes, da cultura, da identidade ilhoa é que ocorre o enlace edificante entre o nativo (que deu origem a história), com o conviva que está a ser agora o sujeito de uma nova história.

Os desatinos nos grandes centros amplificam cotidianamente o duelo infame travado na luta insana da sobrevivência anônima e do consumismo insólito que ignora a história.


Esses aspectos epistemológicos mais profundos são lícitos de se reiterar, pois a curta memória da patuleia apaga, como por encanto, o fato notório de que o arquipélago, desde a colonização das terras de expansão econômica portuguesa no além-mar, foi contumaz espaço destinado a depósito de indesejáveis por mais de 200 anos.


Muitas ilhas do mundo foram destinadas a presídios, como a Ilha Robben na África do Sul, a Ilha do diabo na Guiana Francesa, a Ilha Grande na Baía de Angra dos Reis, a Ilha Anchieta no litoral norte de São Paulo, a Ilha de Alcatraz na Baia de São Francisco, Califórnia – EUA, e outras menos famosas.


Na ilha principal do arquipélago oceânico brasileiro foram despejados pelos colonizadores os anátemas, corrompidos e corruptíveis, detentores de muitos atributos demonizados, como os capoeiristas, que a sociedade oitocentista baniu para além do horizonte, de forma a “ocupar” o território insular para proteger contra as invasões estrangeiras.


O ambiente das ilhas-presídios, e não apenas Noronha, é impossível de se imaginar, mas podem ser descritos como "inferno no mar”, em que nem os demônios queriam lá habitar.


As ilhas de Fernando de Noronha, neste sentido, favorecem exemplificar como o atual ensejo lúdico embasado por narrativas eivadas de criatividade descrevem subitamente o destino macabro como um “paraíso insular”, contrapondo ao significado que essas mesmas ilhas em um passado muito recente, serviam de receptáculo dos execrados.


Embora saudável sob a ótica da purificação dos ambientes, é notória essa mudança radical de percepção. Subitamente se dá uma transformação da visão popular que, no meado da década de 1980, como num passe de mágica, começa a enxergar o "Érebo" insular” sob a ótica de “santuário”, como se de verdade fossem.


Passam as ilhas a serem elevadas ao ícone do desejo santificado, fazendo contraposição com as áreas continentais que estão com prazo vencido, ditas infectadas, desregradas e às quais se atribuem as malignas criatividades da OMS, das supostas “mudanças climáticas”.


As ilhas-presídios entraram no rol de destinos de visitação como mercadorias saudáveis e dentro do prazo de validade para acolher os descolados que, a bordo de cruzeiros marítimos bregas, chegam ansiosos para aplaudir o pôr-do-sol.


A partir da percepção filtrada por um prisma eco ideológico purista, construído por narrativas bem-ensaiadas, o tradicional local oceânico de degredo, ganhou feições pitorescas como caldeira de depuração e expiação de pecados a operar a transformação.


Neste sentido, o ideal seria que esses espaços fossem utilizados para alertar sobre os factoides e, no ensejo, aproveitar para repassar conhecimentos aos que lá desembarcam para que entendam que o pensamento ecológico, per se, não é um deus – mas que as atividades recreativas bem-orientadas colocam o cliente em relação ao espaço: ficam “um em relação ao outro” para entender que não estamos no universo, nós somos o próprio universo. Esta percepção dá o sentido máximo de valoração ao que é o pertencimento.


CONCLUSÃO

Em 1507, a Lettera desobedeceu ao “segredo de Estado” imposto por D. Manoel I.


Até o momento da publicação deste artigo, o sítio da Capitânia de 1503 continua sendo mantido em “segredo”, no perfeito estilo seiscentista e, como sugeriu Randal (abaixo).


(...) Quando em 1993 as autoridades de plantão em Fernando de Noronha solicitaram que (Randal Fonseca) informasse as coordenadas geográficas onde estavam localizados os vestígios que comprovaram o naufrágio da Capitânia de 1503, o que se ouviu ele dizer foi:


“senhores, se o navio está lá há mais de 500 anos, então poderá ficar lá com toda segurança, sem pressa, por tanto tempo quanto seja preciso, aguardando até que se ajustem os interesses da política nacional, da História nacional, e da historiografia nacional com as melhores práticas da Arqueologia Pública nacional”.


Os ensinamentos de McGrail (1984) reiteraram aos eruditos que:

“o estudo arqueológico de navios demanda especialistas com grande experiência, que em geral, não podem ser encontrados dentre arqueólogos tradicionais – o que se busca obter a partir de investigação arqueológica de um navio é amplo e irrestrito, podendo inclusive decidir-se manter preservado no local para as futuras gerações, onde arqueólogos podem querer investigar à luz de novas questões e conjunturas".


A REDENÇÃO ACONTECEU

O povo de Fernando de Noronha, como dito acima, apresentava significativa baixa autoestima. A população até 1988 era mantida sob o Comando das Forças Armadas estacionadas no arquipélago. Além de comandante militar, o designado para o cargo acumulava a função de Governador do então Território Federal de Fernando de Noronha.


Governar os civis, até certo ponto era considerado como uma atribuição inoportuna, mas essencial, pois a soberania das ilhas dependia da ocupação civil. Ou seja, se fossem apenas militares a manter o domínio territorial, outras nações poderiam disputar esse direito, seja lá qual viesse ser a justificativa. É lícito lembrar que em 1986, o acordo de Montego Bay havia sido firmado, garantindo o direito sobre as ilhas habitadas por população civil.


Então, projetos de estudos ambientais foram implantados no Atol das Rocas, em Trindade e Martim Vaz e nos penedos São Pedro e São Paulo, anuindo ao Acordo da Jamaica.


No entanto, esse Direito Civil em Fernando de Noronha ainda estava com os militares que não tinham apreciação pelo valor dos moradores. Assim, o desprezo com que os ilhéus eram tratados refletia na baixa autoestima. O direito civil de a AGUAS CLARAS operar, foi obtido mediante contrato firmado com a Força Aérea, sob o comando do Coronel aviador.


Para os nativos a empresa de mergulho era considerada como "invasores". Para reverter a hostilidade foram necessárias várias estratégias que incluiu ensinar jovens a mergulhar e dar a eles a profissão de mergulhador, reconhecida pelo SINTASA. Mas essa é outra história.


Com o sucesso da Campanha de Localização que culminou com confirmação dos relatos de Américo Vespúcio, e com a mudança do governo militar para o governo civil a partir de 1988, quando Fernando de Noronha foi reanexado ao estado de Pernambuco, os ilhéus passaram a ser considerados como um grupo social de invejável valor cultural. Com isso, a data do naufrágio da Capitânia de 1503, que é o 10 de agosto e que passou a ser a data de nascimento daquela população até então considerada herdeira do banimento colonial.


O ORGULHO DE SER NORONHENSE

Atualmente, pessoas que migraram para Fernando de Noronha, se outorgam adicionar ao nome próprio o adjetivo gentílico "de-Noronha" como um qualificador de valor social.


Sem dúvida, a comprovação do naufrágio da Capitânia trouxe imenso valor agregado tanto à historiografia nacional, como à Arqueologia Subaquática, aos nativos e pessoas que oriundas de diferentes localidades do Brasil, buscam ter uma identidade histórica de valor.



AGRADECIMENTOS

In memoriam, ao meu saudoso amigo e mentor Márcio Werneck da Cunha, que abriu o caminho para o interesse e respeito às ciências históricas mas, que prematuramente nos deixou, mas nos presenteou com sua obra América de Américo que pode ser adquirida: amazon.com.br 


In memorian ao meu saudoso amigo, sócio e professor Arduíno Colassanti que me fez entender as complexas relações de uma arqueologia subaquática acadêmica comprometida com a proteção ambiental e com o patrimônio cultural submerso.


Ao doutor Professor Pedro Paulo A. Funari, a quem devo a oportunidade e a orientação nos meus primeiros passos em direção a Arqueologia Pública, reitero os meus sinceros agradecimentos e admiração.


Aos membros das minhas equipes de Arraial do Cabo, Cabo Frio, Rio de Janeiro e Fernando de Noronha que, com dedicação que excede qualquer obrigação profissional possibilitaram alcançar os objetivos das operações náuticas e submarinas.


Ao meu sócio, Russel W. Coffin, entusiasta da proteção ambiental e fotógrafo capaz de enxergar e registrar detalhes da vida submersa que contribuíram para sensibilizar nossos clientes da Águas Claras e autoridades responsáveis pelas autorizações de investigações.

Russell Coffin, idealizador da Águas Claras Fernando de Noronha e Randal Fonseca, protagonista da Campanha de Localização do Naufrágio de 1503 descrito por Vespúcio

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