A INVESTIGAÇÃO NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
- Randal Fonseca

- há 11 minutos
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Ao se investigar ciências sociais há uma profunda dificuldade em estabelecer métodos para conduzir as pesquisas em ambientes repletos de interferências externas.

O filósofo August Comte diz que nas investigações de ambientes sociais complexos, o método científico precisa ser abrangente. Em aditamento, Wilhelm Dilthey diz que as ciências sociais precisam diferenciar entre “compreender” e “explicar” os fenômenos e delega aos gestores de emergências contextualizar a investigação na história e na cultura.

Para fazer distinção entre os métodos, diríamos que o nível de abstração do gestor de emergências precisa ser aguçado para examinar fenômenos da natureza e da sociedade.
Em primeiro lugar, o gestor usa a abordagem indutiva para discriminar os fenômenos – caminhando das particularidades das leis e teorias para aspectos cada vez mais abrangentes. Ou seja, o gestor a princípio faz a conexão descendente com o método hipotético-dedutivo – começando pela percepção de uma lacuna nos conhecimentos, acerca da qual ele formula hipóteses e, pelo processo de inferência dedutiva.
A partir daí, o gestor testa a predição da ocorrência de fenômenos abrangidos pelas hipóteses; que é o método dialético – e penetra fenômenos através de ação recíproca, da contradição inerente ao fenômeno e da mudança dialética entre a natureza e a sociedade.
Os métodos são então etapas da investigação, com finalidade mais restrita em termos de explicação geral dos fenômenos e menos abstratas. É possível dizer que as técnicas se dão pelo uso mais abrangente que tem origem em métodos. Pressupõem uma atitude concreta em relação ao fenômeno e limitado a um domínio particular. O que veremos na área das ciências sociais, é que vários métodos são geralmente utilizados concomitantemente.
MÉTODO HISTÓRICO
Promovido por Boas, parte do princípio de que as atuais formas de vida social, as instituições e os costumes têm origem no passado, por isso é importante pesquisar suas raízes, para compreender sua natureza e função.

Assim, o método histórico consiste em investigar acontecimentos, processos e instituições do passado para verificar a sua influência na sociedade de hoje, pois as instituições alcançaram sua forma atual ao longo do tempo, através de alterações de suas partes componentes, influenciadas pelo contexto cultural particular de cada época. Seu estudo busca uma melhor compreensão do papel que atualmente desempenham na sociedade, que decorrem dos períodos da sua formação e das modificações.
Exemplos permitem compreender a noção atual de família e parentesco, examinando-se no passado os diferentes elementos constitutivos dos tipos de família e as fases da sua evolução social. Já, para descobrir as causas da decadência da aristocracia cafeeira, investigam-se os fatores socioeconômicos do passado.
Portanto, colocando-se os fenômenos, como por exemplo, as instituições, no ambiente social em que nasceram, entre as suas condições “concomitantes”, toma-se mais fácil a sua análise e compreensão, no que diz respeito à gênese e ao desenvolvimento, assim como às sucessivas alterações, permitindo a comparação de sociedades diferentes: o método histórico preenche os vazios dos fatos apoiando-se em um tempo, mesmo que artificialmente reconstruído, que assegura o entrelaçamento dos fenômenos.
MÉTODO COMPARATIVO
Empregado por Tylor, considera o estudo das semelhanças e das diferenças entre diversos tipos de grupos, sociedades ou povos contribui para uma melhor compreensão do comportamento humano, este método realiza comparações, com a finalidade de verificar similitudes e explicar divergências. O método comparativo é usado tanto para comparações de grupos no presente, no passado, ou entre os existentes e os do passado, quanto entre sociedades de iguais ou de diferentes estágios de desenvolvimento.

Exemplos são os modos de vida rural e urbano; características sociais da colonização portuguesa e espanhola na América Latina; classes sociais no Brasil, na época colonial e atualmente; organização de empresas norte-americanas e japonesas; a educação entre os povos ágrafos e os tecnologicamente desenvolvidos.
O método comparativo permite analisar um dado concreto, deduzindo os elementos abstratos e gerais. Esse método é empregado em estudos de largo alcance para estudos qualitativos e quantitativos. Em um estudo descritivo pode averiguar a analogia entre um e outro, ou pode analisar os elementos de uma estrutura. Nas classificações, permite a construção de tipologias. A nível de explicação, pode apontar vínculos causais, entre os fatores presentes e ausentes.

MÉTODO MONOGRÁFICO
Criado por Le Play, que o empregou ao estudar famílias operárias na Europa, partindo do princípio de que qualquer caso que se estude em profundidade pode ser considerado representativo de muitos outros ou até de todos os casos semelhantes. O método monográfico consiste no estudo de determinados indivíduos, profissões, condições, instituições, grupos ou comunidades, com a finalidade de obter generalizações. A investigação examina o tema escolhido, observa os fatores e analisa os aspectos.
Exemplos são as monografias regionais, as rurais, as de aldeia e, até, as urbanas.

Em seu início, o método monográfico consistia no exame de aspectos particulares, como, por exemplo, o orçamento familiar, as características de profissões ou de indústrias domiciliares, o custo de vida etc. Entretanto, o estudo monográfico pode, também, em vez de se concentrar em um aspecto, abranger o conjunto das atividades de um grupo social particular, como no exemplo das cooperativas e do grupo indígena ou de danças.
A vantagem do método monográfico é respeitar a “totalidade solidária” dos grupos, ao estudar a vida do grupo na sua unidade concreta, evitando, dissociar dos seus elementos.
MÉTODO ESTATÍSTICO
Planejado por Quetelet, os processos estatísticos permitem obter, de conjuntos complexos, representações simples e constatar se essas verificações simplificadas têm relações entre si.
O método estatístico significa reduzir fenômenos sociológicos, políticos, econômicos etc. a termos quantitativos e a manipulação estatística, que permite comprovar as relações dos fenômenos entre si, e obter generalizações sobre sua natureza, ocorrência ou significado.

Exemplo inclui correlacionar o nível de escolaridade e número de filhos; pesquisar as classes sociais dos estudantes universitários e o tipo de lazer preferido pelos estudantes.
O método estatístico fornece uma descrição quantitativa da sociedade, considerada como um todo organizado. Por exemplo, define e delimita as elasses sociais, especificando as características, e mede a importância ou a variação, ou qualquer outro atributo quantificável que contribua para o seu melhor entendimento. Mas a estatística pode ser considerada mais do que apenas um meio de descrição racional; é, também, um método de experimentação e prova, pois é método de análise.
MÉTODO TIPOLÓGICO
Empregado por Max Weber apresenta certas semelhanças com o método comparativo. Ao comparar fenômenos sociais complexos, o pesquisador cria tipos ou modelos ideais, construídos a partir da análise de aspectos essenciais do fenômeno.
A característica principal do tipo ideal é não existir na realidade, mas servir de modelo para a análise e compreensão de casos concretos, realmente existentes. Weber, através da classificação e comparação de diversos tipos de cidades, determinou as características essenciais da cidade; da mesma maneira, pesquisou as diferentes formas de capitalismo para estabelecer a caracterização ideal do capitalismo moderno; e, partindo do exame dos tipos de organização, apresentou o tipo ideal de organização burocrática.

Exemplo inclui tipificar as formas de governo democrático do presente e do passado, para estabelecer as características que revelam as ideais da democracia.
Para Weber, a vocação prioritária do cientista é separar os juízos de realidade – o que é – e os juízos de valor – o que deve ser – da análise científica, com a finalidade de perseguir o conhecimento pelo conhecimento. Assim, o tipo ideal não é uma hipótese, pois se configura como uma proposição que corresponde a uma realidade concreta; portanto, é abstrato; não é uma descrição da realidade, pois só retém, através de um processo de comparação e seleção de similitudes, certos aspectos dela; também não pode ser considerado como um “termo médio”, pois seu significado não emerge da noção quantitativa da realidade.
O tipo ideal não expressa a totalidade da realidade, mas seus aspectos significativos, os caracteres mais gerais, os que se encontram regularmente no fenômeno estudado.
O tipo ideal, segundo Weber, diferencia-se do conceito, porque não se contenta com selecionar a realidade, mas também a enriquece. O papel do cientista social consiste em ampliar as qualidades e ressaltar certos aspectos do fenômeno que se pretende analisar.
Entretanto, só podem ser objeto de estudo do método tipológico os fenômenos que se prestam a uma divisão, a uma dicotomia de “tipo” e “não tipo”. Os próprios estudos efetuados por Weber demonstram essa característica: “cidade” – “outros tipos de povoamento”; “capitalismo” – “outros tipos de estrutura socioeconômica”; “organização burocrática” – “organização não-burocrática”.
MÉTODO FUNCIONALISTA
Utilizado por Malinowski, é mais um método de interpretação do que de investigação. Levando-se em consideração que a sociedade é formada por partes componentes, diferenciadas, inter-relacionadas e interdependentes, satisfazendo, cada uma, funções essenciais da vida social, e que as partes são mais bem entendidas compreendendo-se as funções que desempenham no todo, o método funcionalista estuda a sociedade do ponto de vista da função de suas unidades, isto é, como um sistema organizado de atividades.

Exemplos incluem analisar as principais diferenciações de funções que devem existir num pequeno grupo isolado, para que ele sobreviva; averiguação da função dos usos e costumes no sentido de assegurar a identidade cultural de um grupo.
O método funcionalista considera, de um lado, a sociedade como uma estrutura complexa de grupos ou indivíduos, reunidos numa trama de ações e reações sociais; de outro, como um sistema de instituições correlacionadas, agindo e reagindo umas em relação às outras.
Qualquer que seja o enfoque, fica claro que o conceito de sociedade é visto como um todo em funcionamento, um sistema em operação. E o papel das partes nesse todo é compreendido como funções no complexo de estrutura e organização.
Spencer, na sua analogia da sociedade com um organismo biológico, a função de uma instituição social toma com Durkheim a característica de uma correspondência entre ela e as necessidades do organismo social. Ele chega a fazer distinção entre o funcionamento “normal” e “patológico” das instituições. Mas é com Malinowski que a análise funcionalista envolve a afirmação dogmática da integração funcional de toda a sociedade, onde cada parte tem uma função específica a desempenhar no todo.

Merton critica a função das atividades, e cria o conceito de funções manifestas e latentes.
Exemplo inclui a função da família que é ordenar as relações sexuais, atender à reprodução, satisfazer as necessidades econômicas de seus membros e as educacionais, sob a forma de da transmissão de status; a função da escola é educar a população, inclusive o profissional.
Estas finalidades, pretendidas e esperadas das organizações, são denominadas funções manifestas. É evidente que a análise da real atuação das organizações sociais demonstra que, ao realizar suas funções manifestas, muitas vezes elas obtêm consequências não pretendidas, não esperadas e, inclusive, não reconhecidas, denominadas funções latentes.
Pode-se citar que a ideologia dominante em uma democracia é a de que todos devem ter as mesmas oportunidades, o que leva os componentes da sociedade à crença de que todos são iguais; ora, a função latente manifesta-se num aumento de inveja, já que o sistema educacional amplia as desigualdades entre os indivíduos, de acordo com o grau de escolaridade e as oportunidades de obter educação superior pela classe social.
MÉTODO ESTRUTURALISTA
Desenvolvido por Lévi-Strauss, o método parte da investigação de um fenômeno concreto, eleva-se a seguir ao nível do abstrato, por intermédio da constituição de um modelo que represente o objeto de estudo retomando ao concreto, dessa vez como uma realidade estruturada e relacionada com a experiência do sujeito social.
Considera que uma linguagem abstrata deve ser indispensável para assegurar a possibilidade de comparar experiências à primeira vista irredutíveis que, se assim permanecessem, nada poderiam ensinar; em outras palavras, não poderiam ser estudadas.

O método estruturalista caminha do concreto para o abstrato e vice-versa, dispondo, na segunda etapa, de um modelo para analisar a realidade concreta dos diversos fenômenos.
Exemplos incluem as relações sociais e a posição que estas determinam para os indivíduos e os grupos, com a finalidade de construir um modelo que passa a retratar a estrutura social onde ocorrem tais relações. Também, a verificação das leis que regem o casamento e o sistema de parentesco das sociedades primitivas, ou modernas, com o modelo que represente os diferentes indivíduos e suas relações, no âmbito do matrimônio e parentesco.

No primeiro caso, basta um modelo mecânico, pois são poucos indivíduos; no segundo, será necessário um modelo estatístico. Para penetrar na realidade concreta, a mente constrói modelos que não são diretamente observáveis na própria realidade, mas a retratam em virtude de a razão do modelo corresponder à razão da mente.
Assim, toda análise deve levar a um modelo, cuja característica é a possibilidade de explicar a totalidade do fenômeno, e a sua variabilidade aparente, isto porque, por intermédio da simplificação o modelo resume o fenômeno e propicia sua inteligibilidade.

A diferença primordial entre os métodos tipológico e estruturalista é que o “tipo ideal” do primeiro inexiste na realidade, servindo apenas para estudá-la, e o “modelo” do segundo é a única representação concebível da realidade. Utilizando-se o método estruturalista, não se analisa mais os elementos em si, mas as relações que entre eles ocorrem, pois somente estas são constantes, ao passo que os elementos podem variar; assim, não existem fatos isolados das disciplinas, pois a verdadeira significação resulta da relação entre elas.
Gestão de emergências é disciplina acessória das ciências sociais e humanas que incluem:
Administração
Antropologia
Antropologia cultural
Antropologia física
Antropologia visual
Arqueologia
Artes
Ciência política
Ciências contábeis
Comunicação
Contabilidade
Culturalismo
Economia
Educação
Estatística
Filosofia
Filosofia social
Fonética
Fonologia
Geografia humana
História
Letras
Linguística
Literatura
Marketing
Morfologia
Pedagogia
Relações internacionais
Semântica
Sintaxe
Sociologia
Trabalho social




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