NÃO ADIANTA CHORAR (1)
- Randal Fonseca

- há 3 dias
- 6 min de leitura
Os adultos são os responsáveis por reconhecer os males e traumas em crianças

DESAFIOS DO SOCORRISTA AO ATENDER CRIANÇAS E BEBÊS
As técnicas para avaliar e atender traumas e males súbitos em crianças, bebês e neonatos consideram um conjunto de diferenças anatômicas, funcionais, familiares e sociais.

CHORAR NÃO ADIANTA NADA
A atenção principal deve ser dada ao sistema respiratório e as vias aéreas das crianças.
Os males súbitos em crianças alteram o estado mental, como a asma, crupe, epiglotite, febre alta, convulsões, intoxicações. Já o trauma lidera a causa de morte de crianças.

O socorrista tem que reconhecer de forma precoce os sinais e sintomas do estado de choque, violência e abuso sexual em crianças, estando atento aos detalhes sociais.
CONSIDERAÇÕES ESPECIAIS
Ao atender emergências pediátricas o socorrista deve considerar estar inserido em um sistema familiar e social. Isso significa que os adultos na cena intercederão com opiniões.
INTERAÇÕES SOCIAIS
As interações sociais podem produzir altos níveis de estresse nos envolvidos. Portanto, além da vítima, o socorrista deverá controlar as emoções e as interações com os adultos na cena.

PROGENITORES
Os familiares da vítima pediátrica sofrem algum grau alteração emocional devido a ansiedade e medo, que a criança replica e, com isso dificulta expressar o que sentem.

SOCORRISTAS E SEUS FAMILIARES
Também o desempenho do socorrista é comprometido por sentimentos dos familiares.
Essa é interferência subjetiva que se dá nos casos em que a fisionomia da vítima infantil leva o socorrista a associar com as feições de criança ou bebê da sua própria família.

PROCEDIMENTOS
É previsível que algumas pessoas na cena, embora nada tenham a ver com a criança, possam tanto complicar a situação como ajudar no atendimento. As ações do socorrista devem ser direcionadas a atender a criança, lidar com os pais, e com outros indivíduos.
POR ONDE INICIAR
Embora a vítima seja a criança, o melhor será iniciar estabelecendo um diálogo com os responsáveis, considerando que estarão em busca de entender o que está acontecendo e o que poderá ser feito, especialmente se a condição for grave.

O QUE É GRAVE OU NÃO GRAVE ?
Imagine a reação de uma mãe diante do filho com sangramento na aba do nariz. Os socorristas sabem que ferimentos na face e escalpo sangram e causam má impressão aos leigos, mas sabem que essa visão desagradável de sangue não é grave, nem ameaça à vida.

A percepção da gravidade de ferimentos varia de acordo com o conhecimento; assim, dependendo do grau de envolvimento e domínio dos primeiros socorros, cada pessoa na cena reagirá de forma diferente, como a mãe em relação ao sangramento na testa.
Explique isso aos responsáveis, para que se acalmem e tranquilizem a criança.

Se as condições permitirem, será conveniente deixar que os progenitores segurem a criança, ou estendam a mão para a criança segurar, ou fiquem onde possam ser vistos.
O socorrista deverá se posicionar estabelecendo uma relação de confiança com os responsáveis e com a criança. É essencial dizer seu nome e perguntar o nome da criança.
Chame sempre a vítima pediátrica pelo nome e diga o que estiver fazendo.
Não fique em pé diante de crianças.

O melhor é nivelar o contato com os olhos, ficando agachado ou sentado.
Faça perguntas simples e inclua a criança no atendimento, pedindo que ajude, apontando (ou tocando) a área dolorida. Seja honesto com a criança. Por exemplo, se for necessário avaliar os movimentos de um braço ou perna, explique o que vai fazer e o porquê.
Avise se o toque ou movimento vai doer. Envolva a criança no atendimento.

Ofereça um bicho de pelúcia para cuidar ou uma bandagem para segurar, ou um rolo de esparadrapo. Essas interações ajudam a acalmar criança. O socorrista ficará surpreso com o nível de compreensão que uma criança apresenta em emergência.
DIFERENÇAS ANATÔMICAS E FUNCIONAIS
As crianças e bebês possuem os mesmos sistemas orgânicos dos adultos, mas existem algumas diferenças nas vias aéreas que o socorrista precisa considerar.
As vias respiratórias das crianças são menores em relação ao resto de seu corpo. Assim sendo, são mais susceptíveis de sofrer bloqueio por secreções ou inchaço, por exemplo, a língua da criança é maior do que a dos adultos em relação à cavidade oral.

Um inchaço pode ser provocado por doença ou trauma.
Em caso de inconsciência a probabilidade de a língua da criança provocar bloqueio das vias aéreas será muito maior do que no adulto. As estruturas anatômicas das vias aéreas de uma criança são muito mais flexíveis que as do adulto, portanto se for necessário abrir as vias aéreas, não aplique a hiperextensão de pescoço.
No atendimento a vítimas pediátricas aplique apenas a extensão do pescoço, colocando a cabeça na posição neutra, conhecida como “posição de cheirar o ar” (imagem abaixo).

A hiperextensão na criança provocará bloqueio ao invés de abrir as vias aéreas.
Lembre-se de que o bebê não poderá respirar pela boca se o nariz estiver entupido.
É importante saber que nos primeiros seis meses de vida, bebês só respiram pelo nariz.
Por isso, é fundamental manter o narizinho dos bebês bem limpos e desimpedidos para permitir a respiração. Por outro lado, os bebês e crianças ficam asfixiados muito mais rápido e podem apresentar insuficiência respiratória, degenerando para uma parada respiratória.
Sempre que atender vítimas pediátricas, avalie as vias aéreas a cada 5 minutos. A exemplo da respiração, bebês e crianças não suportam mudanças de temperatura como os adultos.

Anatomicamente, a criança possui superfície corporal maior em relação à massa de seu corpo. Isso quer dizer que perdem mais calor e aquecem mais rápido que adultos. É essencial preservar a temperatura corporal normal, adicionando calor se ficarem com frio e esfriando se a temperatura corporal aumentar.
MÉTODO OBJETIVO DA AVALIAÇÃO DE CRIANÇAS

Um olhar perdido, apatia ou letargia pode indicar doença ou trauma. Bebês e crianças normalmente choram em resposta ao medo ou dor; uma criança que não estiver chorando pode estar com o nível de consciência rebaixado.
Se estiver chorando, avalie se é choro normal e saudável, ou de birra, ou de lamúria?
Ao avaliar, preste atenção no estado mental, nível de interação, compleição e ânimo.

Concentre a atenção na aparência, respirações e coloração da pele ou das mucosas.
RESPIRAÇÕES POR MINUTO
O ritmo respiratório pode ser calculado contando as respirações por 30 segundos e multiplicando por dois (2). Se fizer a contagem das respirações num intervalo inferior a 30 segundos poderá errar o cálculo, pois as crianças possuem padrão irregular de respiração.
Ao avaliar, procure por sinais de problema respiratório que pode incluir: agitação, sons na respiração, alargamento das abas do nariz, retração e contrações exageradas da musculatura do pescoço e do tórax, além dos sinais de fadiga. Concentre também a atenção na aparência geral e na coloração da pele ou das mucosas da boca e dos olhos.
RITMO DO PULSO (BRAQUIAL)
O pulso normal de um bebê (100 por minuto) é naturalmente mais rápido do que nos adultos. Procure sentir o pulso na artéria braquial ou diretamente sobre o coração.

TEMPERATURA CORPORAL
Temperaturas corporais altas em crianças são acompanhadas de diversos sinais, incluindo pele avermelhada e inflamada; transpiração e agitação. É possível perceber a temperatura elevada tocando no tórax e na cabeça. O ritmo cardíaco também serve como referência, pois fica mais rápido na proporção em que a temperatura aumenta.

CUIDADOS RESPIRATÓRIOS
Tanto os adultos como as crianças não podem ficar sem oxigênio por mais de alguns minutos. Caso isso ocorra, poderá causar lesões irreversíveis no cérebro. Se houver parada respiratória será necessário aplicar o Suporte Básico de Vida (SBV).
A parada respiratória em bebês e crianças levará a parada cardíaca, ou seja, primeiro sofrem a parada respiratória e, por falta de oxigênio, ocorre a parada do coração. Por isso, é importante saber como abrir as vias aéreas ao atender problema respiratório.

Algumas causas específicas de parada cardiopulmonar em crianças incluem a asfixia – provocada pela presença de corpo estranho nas vias aéreas, infecções das vias aéreas, como difteria laríngea (Crupe) e epiglotite, síndrome de morte súbita infantil (SID), intoxicações incidentais e traumas na cabeça e pescoço.
OITO TÉCNICAS ESPECIAIS PARA CRIANÇA PEQUENA E BEBÊS
Atender emergências respiratórias inclui aplicar o Suporte Básico de Vida pediátrico;
Será necessário remover secreções da cavidade oral;
Aplique extensão do pescoço e protrusão da mandíbula para abrir as vias aéreas;
NÃO aplique hiperextensão do pescoço pois bloqueará as vias aéreas;
Apenas estenda o pescoço, colocando a cabeça na posição neutra;
Uma toalha dobrada sob os ombros do bebê ajuda manter a cabeça na posição neutra;
Se suspeitar de trauma no pescoço abra as vias aéreas só com tração da mandíbula;
Ao tracionar a mandíbula estabilize a cabeça e pescoço.




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