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CRISE DE CONDUTA #1

  • Foto do escritor: Randal Fonseca
    Randal Fonseca
  • 11 de jun.
  • 8 min de leitura

Atualizado: 17 de jun.

UMA VISÃO AFUNILADA DA REALIDADE

O socorrista pode auxiliar a pessoa nas fases subjacentes à crise que a impede raciocinar.


CAUSAS DAS EMERGÊNCIAS COMPORTAMENTAIS

Ao identificar a crise de conduta o socorrista pode dar suporte em qualquer das fases em que fatores emocionais e psicológicos atingem a vítima, familiares, amigos e curiosos.


Durante uma crise de conduta o indivíduo faz uma mudança de atitude inaceitável e dirige a energia psicótica a pessoas na cena, colocando o socorrista em posição de risco.

Os procedimentos de primeiros socorros para crises de conduta empregam técnicas que visam controlar as atitudes físicas e emocionais da pessoa que, em geral, se apresenta ansiosa e com sinais típicos do estresse agudo, como medo, raiva, negação e tristeza.


Determinados cenários podem ficar complexos quando uma pessoa tendo alucinações em um ambiente instável pode contagiar outras que também passam a experimentar delírios.


Diante desses desafios emocionalmente conturbados o problema pode se agravar com a somatória de intervenções de agentes despreparados para atuar no evento, elevando as tensões se o ambiente for noturno, com pouca ou nenhuma iluminação.

Socorristas ao trabalharem durante a noite devem sempre ter consigo recursos simples, mas eficazes, como lanternas e coletes refletivos. O nível de preparação do agente passa a mensagem de profissionalismo embasado no método técnico-científico de atuação.


A emergência comportamental ocorre de forma repentina, provocando estresse agudo nas pessoas ao redor. Exemplos de atitudes intempestivas incluem a resposta incoerente de paciente ao ser informado de ser portador de doença incurável, ou de estar diante da morte iminente de um ente querido que tenha sido agredido por molestador.


Também, pessoas que sofrem trauma grave apresentam reações que variam entre uma profunda introspecção até um tipo de violência direcionada a coisas ou a quem a informou.


O socorrista deve equilibrar a interação com preceitos éticos, legais e morais.


POTENCIAIS RAZÕES DA CRISE DE CONDUTA

Na crise de conduta a pessoa apresenta atitude inaceitável a um grupo social. A crise de conduta tem origem na pessoa, mas em alguns casos os familiares ou amigos mudam de comportamento por empatia com o indivíduo alterado. Para compreender melhor como as crises iniciam é necessário considerar as razões que provocam as mudanças de atitude.


  1. Razões clínicas: diabetes descontrolado por baixa quantidade de açúcar no sangue; dispneia provocada por redução de oxigênio no cérebro; febre alta ou frio excessivo.

  2. Razões traumáticas: lesão na cabeça e estado de choque que provocam redução do aporte de sangue para o cérebro.

  3. Razões psicopatológicas: depressão, pânico ou surto psicótico.

  4. Razão por uso de drogas: álcool e uma ampla variedade de substâncias químicas que provocam alteração da realidade.

  5. Razão do estresse: trauma comovente, como ver um ente querido morrendo ou morto, que provoca mudança na conduta, seguido de grave desequilíbrio emocional.


A maioria das crises de conduta se dá de forma repentina, brusca e inesperada, com duração relativamente curta da atitude inaceitável, mas com potencial de contagiar.


FASES DA CRISE DE CONDUTA

  1. Ansiedade e angústia

  2. Negação, fuga da realidade

  3. Raiva

  4. Remorso ou tristeza, torpor, fadiga


Reconhecendo essas fases e entendendo o porquê desencadeiam fica mais fácil para o socorrista ajudar a pessoa e impedir que a crise contagie outros.


  1. Ansiedade e angústia

Os sinais podem incluir olhos injetados, face avermelhada, agitação, respiração rápida e curta, timbre de voz alterado, verborragia e hiperatividade injustificável. Outras reações podem ser o fraquejo das pernas que faz a pessoa se sentar no chão ao constatar a morte súbita de um ente querido. É importante saber diferenciar os sinais e sintomas da conduta alterada, pois em alguns casos são similares ao estado de choque: pele úmida e fria, pulso rápido, respiração rápida, pupilas dilatadas, fotofobia.


  1. Negação

A segunda fase da crise de conduta fica caracterizada pela impossibilidade de aceitar a verdade que está diante dos olhos. Por exemplo, uma criança não aceita a morte do pai e racionaliza dizendo que está dormindo ou foi embora. Nesta fase é essencial permitir que a pessoa expresse a negação. Não desdiga, não argumente. Não tente convencer, pois só contribuirá para agravar o estresse agudo sendo experimentado.


  1. Raiva

A terceira fase pode acompanhar ou substituir a negação. Por exemplo, um cônjuge da poderá gritar, xingar, se expressar com linguagem obscena ou estigmas sociais. Poderá quebrar coisas, chutar e lançar impropérios as divindades. Embora a raiva possa ser manifestada por atitude agressiva, é a forma mais espontânea de extravasar a energia.

O risco da raiva é a violenta ser direcionada contra um amigo, autoridade ou familiar.


  • A raiva talvez seja a emoção humana mais difícil de se lidar porque a agressão em geral é direcionada a quem estiver dando apoio: não leve a raiva como agressão pessoal.

  • A raiva decorre da frustração, da incapacidade de reverter a condição e será melhor que seja descarregada com verborragia e gestos do que com violência.

  • A raiva pode contagiar outras pessoas, que se tornam hostis com elevado nível de excitação a ponto de querer linchar alguém por um evento casuístico.


Uma forma de o socorrista lidar com pessoa na fase hostil é perguntar “Qual é o problema? Isso estimula a pessoa a expressar a raiva. Não interrompa, apenas ouça com atenção.


  1. Remorso ou tristeza

A fase de remorso ou tristeza pode intercalar com a fase da raiva, um vai-e-vem de torpor e fadiga. A pessoa pode subitamente ficar triste e fugir da realidade, mas pode logo voltar a explodir de raiva, pondo a culpa em alguém ou em todo o mundo, falando sem noção.



PRIMEIROS SOCORROS PARA CRISES DE CONDUTA.

Técnicas essenciais ao socorrista: manter a calma e comunicar com tom de voz firme, se dirigindo à pessoal sempre pelo nome. Fixar os olhos, tocar no ombro, sempre com movimentos lentos. Essas ações inspiram confiança. Não se ater a ofensas ou impropérios. E mais uma recomendação ao socorrista: nunca arrisque fazer qualquer citação bíblica.



A COMUNICAÇÃO NÃO-VERBAL COM PESSOA VIOLENTA

Ao atender pessoa em crise de conduta, a sequência indicada é similar a qualquer vítima:

  1. Obter uma visão geral da cena;

  2. Garantir a segurança de todos;

  3. Procurar por ameaça à vida

  4. Determinar o nível de consciência e qualidade da respiração.


VALIAR A CONDIÇÃO

A pessoa em crise de conduta, por pressuposto, estará consciente e respirando, mas essa condição não dispensa fazer o exame físico. No entanto, para conduzir a avaliação inicial da vítima, o ambiente precisa estar calmo e controlado, ou seja, sem ameaças ao socorrista.


O exame físico da cabeça aos pés e o SAMPLE têm a finalidade de obter informações que podem indicar a origem da emergência comportamental, e isso ajuda acalmar a pessoa.


O socorrista precisará empregar estratégias definidas como “reforço, redirecionamento e empatia”, para controlar a condição. Para isso, o socorrista deverá estar preparado para ir além da argumentação retórica, como nos casos em que o sujeito apresenta conduta violenta ou esteja armado. Também, pode ter que lidar com suicidas, agressores sexuais, alguém morrendo. Imaginações irreais atormentam e alteram o comportamento.


A COMUNICAÇÃO FIXANDO O OLHAR

A experiência do socorrista se soma ao aprendizado teórico. Então, o primeiro passo para estabelecer a comunicação é se posicionar do forma que os olhos fiquem fixos nivelados.


Não cruze os braços, não olhe por cima, pois isso transmite atitude dominante.

A posição das mãos e dos braços comunica muito mais do que as palavras.

Cruzar os braços não é uma posição que demonstres estar ali para ajudar.


Outra posição não indicada é colocar as mãos na cintura. Também, armar os braços em forma de defesa é uma linguagem corporal que transmite não estar acreditando no que a pessoa diz sentir. O timbre e entonação da voz comunicam a intenção positiva ou negativa.


COMUNICAÇÃO NÃO-VERBAL

Se for possível, converse com a pessoa de forma assertiva transmitindo o sentimento de estar lá porque se importa com ela. Para isso, precisa transmitir apreço e empatia.


Ao falar, mantenha a voz variando a ênfase, demonstrando calma, dando suporte a uma atitude de honestidade. Não diga “que está tudo bem” quando obviamente não está.


Em síntese, não faça afirmações falsas.


O objetivo dos primeiros socorros em emergências comportamentais é auxiliar a pessoa a superar o episódio de neurastenia, que é um transtorno psicológico que se caracteriza por nervosismo e sensibilidade extremamente aumentada.


Compete ao socorrista se manter neutro; não tomar partido de qualquer argumentação.


TÉCNICAS AUXILIARES

A generosidade conforta e transmite segurança.

Ações como oferecer um lenço substituir as palavras e ajudam a quebrar a resistência.

  1. Diga seu nome e demonstre que está ali para ajudar;

  2. Evidencie cada movimento, descreva o que for fazer;

  3. Use um tom de voz firme, calmo, que inspire honestidade;

  4. Não faça julgamentos, e ouça o que a pessoa tem a dizer;

  5. Evite fazer interpretações da fala e dos sentimentos contidos

  6. Avalie a aparência, referências e orientação espaço-temporal

  7. Demonstre ter ouvido, use o reforço e redirecionamento


REFORÇO

A estratégia do “reforço” significa reformular as frases proferidas pela pessoa em crise de conduta, demonstrando ter percebido o que se passa com ela. o reforço não pode utilizar jargões como: “Eu sei o que está querendo dizer”, ou “Eu sei como se sente”.

Na verdade, ninguém sabe exatamente o que a pessoa está sentindo, mesmo que tenha vivenciado alguma condição similar. Seja honesto e coloque perspectivas que realmente possam dar alguma esperança, sem falsidade.


REDIRECIONAMENTO

A estratégia de redirecionar os motivos e os porquês levam a pessoa a refletir sobre o que acabou de expressar e, com isso, a pessoa se vê na contingência de focar a realidade.

O redirecionamento alivia as tensões ao chamar atenção para a realidade.

Se estiver na presença de curiosos, conduza a pessoa para um local com privacidade.


EMPATIA

Empatia significa perceber os sentimentos ou ideias de outra pessoa. Ser empático é se colocar no lugar da pessoa. Perceba as emoções conturbadas sendo vivenciadas. Pense a respeito: “como eu me sentiria sentado na calçada, rodeado por estranhos?”

Empatia é a técnica mais eficaz aplicada em crise de conduta. Pratique a empatia e observe os efeitos. Treine a empatia no dia a dia até dominar a empatia.

Exercite e empregue a estratégia de empatia em crises de conduta.



CONTROLE DE CURIOSOS

Afaste os curiosos com comandos objetivos. A privacidade reduz a ansiedade da pessoa.

Várias pessoas tentando ajudar, apenas constrange ainda mais em vez de aliviar a tensão. Caso perceba aumenta na tensão emocional, afaste seus colegas explicando o motivo.

Olhe ao redor e procure por pessoas que, mesmo a certa distância, estejam contribuindo para agravar a hostilidade. Se encontrar, peça a um colega que cuide do curioso.


Considere como risco à segurança deixar observadores enxeridos ficarem no local.


CRISE VIOLENTA DE CONDUTA

Se a pessoa em crise de conduta se tornar violenta, estabeleça uma rota de fuga e mantenha contato com o olhar. Aplique as técnicas de comunicação verbal e corporal o mais rápido possível. Procure saber se a pessoa já promoveu episódios de violência.

Ouça e avalie se o timbre da voz tem tom de intimidação. Avalie a postura e intenção. Em situações que exista chance de violência, o melhor será ter apenas um socorrista na cena.

O ideal é que a comunicação seja feita pelo socorrista que conseguiu fixar o contato visual.


Se o controle falhar, chame a polícia.


UM NEURASTÊNICO EMPUNHANDO ARMA

Em alguns casos a pessoa em crise de conduta poderá estar portando arma de fogo, arma branca ou objeto contundente. Nesta condição fique afastado e aguarde. Essa situação será de responsabilidade da polícia. Se necessário, saia imediatamente do local.


CONSIDERAÇÕES JURÍDICAS 

Para proteger os direitos relacionados a atendimentos complexos, como crises de conduta, é necessário conhecer as leis. Se uma pessoa em crise de conduta concordar em receber ajuda, então não haverá problemas legais. No entanto, se a pessoa neurastênica recusar ajuda e ficar evidente que precisa ser ajudada, será necessário atendê-la mesmo contra a vontade. Para isso, é preciso configurar que a pessoa ameace a própria integridade física ou a de outras pessoas. Somente à policia compete o direito de imobilizar a pessoa.


O EMPREGO DA FORÇA

Se para se defender for necessário empregar força, considere o tamanho e a disposição de a pessoa hostil entrar em luta corporal; as técnicas de imobilização precisam ser aprendidas e treinadas e nunca improvisadas. Nos treinos de defesa pessoal são explicados fatores como o sexo do desafiante, estado mental e as opções de golpes para imobilizar sem risco de causar lesões na pessoa em crise.


O ideal é não confrontar a pessoa em crise de conduta, pois pode causar ou sofrer lesões.

A recomendação é que os socorristas tenham alguma noção de técnicas em defesa pessoal.


No caso de ser necessário imobilizar pessoa violenta, o melhor é obter ajuda da polícia.


É essencial documentar todos os detalhes da situação, pois há sempre a possibilidade de o socorrista ser acusado de assédio. Na iminência de haver confronto que envolva contato físico, a preferência será de o socorrista ser do mesmo sexo da vítima.


Juridicamente não é atribuição dos socorristas fazer remoções para hospital, mas é função implícita aos procedimentos de primeiros socorros chamar uma ambulância ou a polícia.


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