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CAP. 07 INSÓLITO RESCALDO

  • margarete2331
  • há 17 horas
  • 10 min de leitura

Logo ao amanhecer daquele dia 15 de setembro, navegamos de volta à ilha onde havíamos deixado todo o nosso material sob custódia do vigia. Agora sem vento: uma calmaria.



Desembarcamos na na ilha e subimos a duna para verificar como havia ficado a sepultura.

No alto da duna, vimos a nadadeira dorsal com uma parte amostra. Concordamos em não mexer, porque é gordura e estando envolvida no nylon desapareceria como tecido mole.


Descemos da duna, embarcamos o material e navegamos de volta a Arraial do Cabo. Atracamos e fomos a sede do Projeto da Marinha para que ajudassem no desembarque.


Negativo. Negaram ajuda. Por que? Qual a razão desta atitude grosseira?


Para entender a atitude, vamos acompanhar o desenrolar de uma insólita notícia de jornal.

 

A NOTÍCIA INSÓLITA

Na manhã do dia 16 de setembro, um amigo me deu um pedaço do Jornal do Brasil, em que eu pude ler o que segue no texto contido no círculo vermelho do recorte abaixo.


“Loucura é crer que homens maus não façam maldades” - Marcus Aurelius


A AMEAÇA INSÓLITA

Por volta das 19h30 deste mesmo dia 16 de setembro de 1981, o Tenente Israel Castelo Branco visitou-nos na nossa residência em Arraial do Cabo, na Rua Abraham Lincoln 131. Ele trajava uniforme completo e tinha a sua arma militar ajustada ao imponente cinturão.


O tenente Israel já era íntimo, tínhamos passado por algumas condições de estresse, como o resgate que fiz quando ele caiu do barco, mas também de alegria que unem as pessoas.


O tenente Israel se aproximou da casa pela porta traseira que dá acesso a cozinha onde estávamos fazendo um lanche. Ele sacou a pistola do coldre e a colocou sobre a nossa mesa de jantar. Ele iniciou a fala em tom balbuciante que nos fez aumentar preocupação em relação àquela visita insólita, com uma ameaça de causar espanto. Mas não causou.


“Desculpe-me, disse ele. Eu NÃO SOU marinheiro de combate, mas no momento eu ESTOU marinheiro sob comando do Almirante Walmir, e venho cumprir ordens superiores”


Considerávamos o tenente como membro integrado à equipe. Uma forma natural de alinhar o relacionamento após as fainas que inclusive envolveram o salvamento dele. Também, logramos sucesso ao enterrar a baleia, expostos ao mau-humor das intempéries.


Então, o Tenente Israel Castelo Branco continuou: "sei que vocês já leram a notícia do JORNAL DO BRASIL do dia 15 de setembro (recorte acima), e espero que possam compreender que não deverão desdizer o texto que foi publicado".


Para bons entendedores aquela fala do tenente tinha a voz da ditadura militar do Brasil.


Ficamos em silêncio sepulcral. Sem nenhuma palavra adicional o tenente Israel foi embora. Nunca mais o vimos. Possivelmente ele foi transferido para Natal, Rio Grande do Norte.  


A DESTRUIÇÃO DO FILME SUPER 8mm

O Sr. Paulo Hargreaves, funcionário da SUDEPE, como relatei, havia levado uma câmera de filmar Super 8 mm com a qual produzimos várias imagens (sensacionais) das operações. Desde o primeiro momento durante o dia, com a baleia orca ainda viva e vomitando; também durante os estertores quando a deixamos no início da noite; filmamos o desfecho quando completamos o enterro no alto da duna, no dia 14 de setembro ao final da tarde.

Os filmes utilizados na câmera eram meus.

Tínhamos um produto em conjunto: a câmera do Hargreaves e os filmes do Randal.


OS FILMES S8mm FORAM REVELADOS NO PANAMÁ

Eu enviei os filmes para serem revelados no Panamá, pois no Brasil, em 1981, não havia esse tipo de serviço. Paguei pela revelação no posto de serviço da Kodak do Rio de Janeiro.


Recebi os filmes revelados depois de 15 dias. Assisti utilizando minha Moviola. Editei as sequências das imagens e sonorizei o conjunto final. Sinceramente, todos os que tiveram oportunidade de assistir ao filme que resultou da edição e sonorização tiveram os olhos marejados e, algumas pessoas soluçaram. Não houve quem não vertesse lágrimas.


Reconheço que tive muita sorte ao sonorizar o filme com a música de Neil Leslie Diamond que a criou para o filme Fernão Capelo Gaivota (Introdution of Jonathan + Dear father).

Eu cheguei a dizer (em tom de troça) que Neil Diamond compôs aquelas duas músicas especialmente para sonorizar o filme da Orca. Acreditem, era de tirar o fôlego; de soluçar.


O EDIÇÃO FINAL DO FILME FOI ROUBADA

Um certo dia, talvez 15 dias depois de o filme estar editado, sonorizado e aplaudido por quem teve a chance de assistir, eu soube pelo meu sócio (já falecido) Flávio Vicenzetto, que o Sr. Paulo Hargreaves (também já falecido) esteve na nossa casa e entrou na minha sala de edição, onde estava o meu acervo fotográfico. Sem cerimônia levou o filme da Baleia Orca que eu finalizara, ou seja, roubou o filme. Depois, da mesma forma que ocorreu com o Tenente Israel, o Paulo Hargreaves saiu de Arraial e o filme sumiu.


OUTRO SUBALTERNO A CUMPRIR ORDENS

Eu não queria acreditar, mas foram novamente ordens do Almirante da Marinha, Paulo veio pegar o filme para que não fosse divulgado. A ditadura militar mandava.


FATO E CONVICÇÃO

O fato da notícia fraudulenta do Jornal do Brasil e a seguir uma convocação que recebi do Almirante, entendi que Hargreaves não tivesse furtado o filme apenas em benefício próprio. A convicção foi de que Hargreaves cumpriu a ordem do Almirante Walmir, como fez o Israel.


A CONVOCAÇÃO

O Almirante Walmir me convocou para uma reunião com outras autoridades da Marinha em que também estavam presentes biólogos e oceanógrafos pesquisadores do Projeto.


Em meio as apresentações dos cientistas, o Almirante Walmir se dirigiu a mim e me perguntou por que eu investi tempo e dinheiro para salvar a baleia ou o que restou dela?


Sem pensar, respondi com outra pergunta: "prezado Almirante Walmir, o senhor não sabe o PORQUÊ de salvar a baleia?" E ouvi dele: exatamente, NÃO SEI.

Então, complementei: "Almirante, essa é a razão!" Não se pode matar até que se saiba.


A PRESUNÇÃO

Acreditávamos que a ossada pudesse estar limpa pela ação de microrganismos em seis a sete meses. Essa suposição foi rebatida pelos técnicos do Museu Nacional. Eles explicaram que “areia de praia” não é favorável à decomposição; pelo contrário, devido a salinidade o tecido mole demoraria muito mais tempo para ser deteriorado.


NO INTERVALO

A AQUA-RIO colaborou com a iniciativa de se ter em Arraial um Museu, e fez a doação de quatro aquários marinhos que compunham a fachada do prédio que estava em construção.


A DITADURA DITAVA A HISTÓRIA

A Marinha aceitou a doação dos aquários marinhos, mas literalmente impediram de ter o nome da AQUA-RIO associado ao que efetivamente realizamos. Ficamos fora da história.


O DESENTERRO - EXUMAÇÃO DA OSSADA

Pouco mais de um ano e meio do enterro da orca, o tenente Daniel Benetti nos procurou e informou que a ossada já estava em ponto de ser exumada para ser levada ao museu.


O tenente Benetti marcou a data para a exumação e comunicou que seriam os pescadores nativos de Arraial do Cabo a assumir a operação, visto que eram eles, os pescadores que sabiam onde exatamente a orca estava enterrada. Estávamos diante de um fato insólito. Como seria possível os nativos saberem onde a baleia estava enterrada. No dia em que enterramos a carcaça da orca não havia nenhum pescador nativo na praia da Ilha do Farol.


OUTRA FAINA INSÓLITA

No dia agendado para a exumação dos ossos, comparecemos a Praia dos Anjos para encontrar o Tenente Benetti. Estava comigo a Leonora Fritzsche (fotógrafa da AQUA-RIO) e Cláudisson Vasconcellos (que ingressara como sócio da AQUA-RIO em 1982). No embarque, encontramos com um grande grupo de pescadores nativos convidados pelo tenente Benetti. Navegamos em vários barcos até a enseada da Ilha de Cabo Frio.


O tenente Benetti reiterou que seriam apenas os nativos que desenterrariam a ossada.

Dirigiu-se a nós da AQUA-RIO enfatizando que deveríamos ficar afastados e aguardar sem dar opinião alguma. Ficou evidente que havia lá um “circo mambembe” sendo armado.



Nós da AQUA-RIO já havíamos sido proibidos de mencionar nossa participação no salvamento da carcaça, portanto, agora estaríamos lá apenas como plateia daquele episódio forjado pela ditadura que objetivava nos afastar da carcaça enterrada.


Por isso, para ratificar a mentira, convocaram os pescadores nativos para encenar o circo.


UM ASPECTO CULTURAL

Vale recordar que no dia do encalhe, os pescadores ficaram assombrados com o fato de a orca ter dentes. Durante décadas Taiyo processou baleias e nunca os nativos viram um cetáceo odontoceti. Por isso ficaram impressionados ao ver dentes em baleia e literalmente sumiram da praia onde estava a orca, "por ser aquele monstro a encarnação do demônio”.


Os nativos ficaram sempre longe dali, então como saber onde baleia estava enterrada?


“ENTÃO, SÃO OS NATIVOS QUE SABEM” (Sic!)

Os nativos ouviam e comentavam sobre a baleia. Eles sabiam o que havia sido publicado no Jornal do Brasil e no O Globo. Sabiam que a Marinha estava construindo um Museu.


Portanto, quando o tenente Benetti convidou os pescadores nativos para desenterrar a carcaça, é possível supor que aquele grupo tinha certeza de que encontraria a ossada.


O grupo era composto por dez voluntários. Eles trouxeram pás e enxadas e iniciaram uma escavação frenética na área em que haviam avistado de longe a baleia deitada na areia.


Várias horas se passaram com os nativos movendo a areia da praia de um lado para outro.


Eu, Leonora e Cláudisson seguimos à risca a instrução e não nos intrometermos. Ficamos obedientes às ordens do tenente, no alto da duna a assistir o teatro encenado pelos nativos.


NADA FOI DESENTERRADO

Quando já estávamos no meado da tarde os nativos se deram por exaustos e convencidos de que lá, naquela praia, não havia baleia ou carcaça alguma enterrada, e desistiram.


O tenente concordou. Um dos nativos em voz alta vociferou que “se lá houvesse sido enterrada a carcaça as marés altas e baixas ao longos dos meses teria levado embora”.

O arauto asseverou que os ossos da orca deveriam estar enterrados no fundo do mar.


A DECISÃO DO TENENTE

O tenente Benetti conferindo o horário deu a faina por terminada, ordenando que os homens reunissem os apetrechos e se preparassem para retornar ao Arraial do Cabo.


A REVELAÇÃO

Foi então que em voz baixa perguntei ao tenente Benetti se ele realmente queria levar a ossada para o museu ou, se o movimento encenado era para dar um fim ao episódio.

 O tenente concordou que a ossada havia sido carregada pelas marés. Mas não havia.

Revelei que estivéramos o dia todo sentados exatamente sobre o local no alto da duna,


No alto da duna, onde a Lola este sentada, passei a mão de leve na areia e expus ao tenente a tela de nylon conservada. Mexi mais com as mãos e logo apareceu a carcaça. Ao perceber o erro o tenente ordenou que ficássemos calados. Pediu que ficássemos lá sentados até que todos fossem embarcados. Pediu que viéssemos outro dia a resgatar.


A RECUPERAÇÃO DA CARCAÇA

Deixamos passar duas semanas e então retornamos à ilha de Cabo Frio. Mas ao cava constatamos que a carcaça ainda estava com tecidos moles preservados.


A areia da praia, como dissera o técnico do Museu Nacional, não é ambiente favorável a decomposição de matéria orgânica. Ainda havia sangue vermelho escuro ressecado e gosmento que entremeava nacos de carne que pareciam trapos de limpar chiqueiro.


O fedor nauseabundo estava ainda mais intenso, mas desenterramos o pacote, trasladamos a carcaça para a praia dos Anjos em Arraial do Cabo, e entregamos ao pessoal da Marinha.


LEMBRA DOS DENTES? - POIS É! REAPARECERAM

Um certo dia, já no ano de 1984, recebi na loja AQUA-RIO, na Rua da Gamboa, 31 - Cabo Frio, a visita de um cliente que se identificou apenas como “Tenente da Marinha”


Esse tenente estava engajado no Projeto Almirante Paulo Moreira da Silva, em Arraial do Cabo. Ele retirou do bolso da calça um par de dentes de Orca, e ofereceu-me para comprá-los por uma módica quantia, visto que eram de marfim. Então o desaparecimento dos quatro outros dentes que ninguém dizia como foram surrupiados e que permanecera um enigma por mais de três anos, agora estava desvelado. Relatei ao tenente Daniel Benetti que estava comigo um "tenente-tira-dentes-de-orca”- Há mistérios? Não, há incautos?.


O IMPLANTE DENTÁRIO

O dentista meu amigo, Dr. Cícero Jinsaburo Minei (falecido), tomou o molde dos dentes da orca, para repor aqueles que haviam sido arrancados por malfeitores. Cícero reproduziu os dentes em acrílico e o implante foi feito na baleia já exposta no Museu da Marinha (1983).

Os implantes estão lá na orca e tão perfeitos que é difícil diferenciar dos originais da baleia.


Tenente Benetti cuidou do incauto. Não soubemos o desfecho, mas é possível supor que, assim como o tenente Israel, o "tenente tira-dentes-de-orca", tenha ido para Natal, RN.


OS REGISTROS FOTOGRÁFICOS

Quando o esqueleto finalmente foi colocado para exibição, a Leonora Fritzsche doou ao museu uma coletânea imagens ampliadas em branco e preto que ela havia fotografado, revelado e emoldurado para contar o passo a passo daquela empreitada. As fotos foram dispostas ao redor do pedestal que afinal suportava o esqueleto, mas a história continua.


MISSÃO CUMPRIDA

O Museu Oceanográfico da Marinha começou a funcionar em 1982. Este museu teve sua origem na proposta de Randal Fonseca, para expor ao público o esqueleto da Orca, com seis metros de comprimento que havia morrido na Ilha do Cabo Frio em 1981.


Apesar dos entraves descritos, objetivo foi alcançado pelos mergulhadores da AQUA-RIO. Endereço do museu: Praça Daniel Barreto s/nº - Praia dos Anjos - Arraial do Cabo/RJ.



FENÔMENOS NA HISTÓRIA

Em 1985 fui trabalhar na Águas Claras, em Fernando de Noronha onde permaneci até 1997.


Em 2007, participando de um passeio com um grupo de motociclistas fui visitar o museu Oceanográfico da Marinha em Arraial do Cabo. Constatei que o histórico fotográfico da faina indómita, passo a passo, doado pela Leonora Fritzsche e disposto ao redor do esqueleto, havia fenomenalmente desaparecido. O atendente disse desconhecer as fotos.


NARRATIVA INCONVENIENTE

A atendente contou com ar de mistério, que “ninguém sabia de onde viera a ossada".


Entretanto, contradizendo o nobre recepcionista, ehavia na parede próximo ao esqueleto, fotos tiradas pelo Tenente Daniel Benetti, com uma câmara xereta no dia do encalhe.


O ESQUELETO EXIBIDO NO MUSEU OCEANOGRÁFICO É REALMENE UM MISTÉRIO?


ISSO É SÉRIO ...?





  Esforços para salvar a vida da orca, e o alento de resgatar a ossada para o museu.


AGRADECIMENTOS


Leonora Fritzsche, minha sócia na AQUA-RIO, pelas fotos que ilustram esse relatório

Cláudisson Vasconcellos, meu sócio na AQUA-RIO, pela dedicação inestimável à equipe

Flávio Vicenzetto †, meu sócio na AQUA-RIO, já falecido, pelo apoio que sempre ofereceu

Arduino Colasanti †, meu sócio na AQUA-RIO, já falecido, pelos ensinamentos de mergulho e navegação que foram a base da minha dedicação à proteção da vida marinha.  


NOTA DE ESCLARECIMENTO


O IMPRESSO ORIGINAL dos episódios descritos neste Relatório, relativamente ao encalhe, enterro, exumação e exposição da Orca no Museu Oceanográfico da Marinha em Arraial do Cabo, foi redigido com uso de uma “Máquina de Escrever Olivetti" no período entre setembro de 1981 e dezembro de 1983.


Em 6 de maio de 2021, este Relatório foi digitalizado e complementado com as imagens da Leonora Fritzsche e obtidas dos jornais O Globo e Jornal do Brasil, por meio do Google, além da inclusão (sem ofensas) das “galhofadas e narrativas inconvenientes”.

 

"EXPERIÊNCIA É UM TROFÉU COMPOSTO POR TODAS AS ARMAS QUE NOS FERIRAM"

Marcus Aurelius

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