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CAP. 06 O PESO DA CARCAÇA

  • margarete2331
  • há 18 horas
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 3 horas

A DETERMINAÇÃO

Tínhamos ainda dúvida de que conseguiríamos tracionar aquele peso duna-acima usando a sugestão do Tenente Israel, que consistia em um sistema vai-e-vem tracionado pelo barco.

O tenente trouxe polias projetadas para uma carga máxima de 200 Kg. Ou seja, estavam muito subdimensionadas para a carga que seria tracionada sem rodas, mas com prancha.


Ao se aplicar os cortes, os músculos e fáscias pareciam ferver com a liberação de gazes da putrefação. Encharcada pelo mar estava infestada de moscas que invadiam nossos olhos.


Uma sugestão excelente veio do Marco Antônio, ao dizer que deveríamos usar um tirfor.


 Pelo rádio, solicitamos ao Projeto em Arraial que nos enviassem um tirfor.


O Tenente Daniel Benetti trouxe o tirfor e, ao retornar, foi com ele o Paulo Hargreaves .

O que restava da carcaça estava ao sabor das ondulações, e se movia.


Ora, se as ondas moviam a carcaça, o tirfor seria capaz de tracionar. Então, com as pás e a enxada abrimos uma vala de cada lado da baleia para encher de água e fazer aquela massa de carne podre flutuar. Cada vez que a onda quebrava a vala fechava aplainando a praia.


Na medida em que tracionávamos íamos posicionando as pranchas untadas com graxa à frente do caminho traçado para a carcaça subir a duna. O tirfor cumpria a função, e num1 compasso lento e penoso, fizemos a cabeça girar para inverter a posição da cauda.


UM GRANDE PROGRESSO

Tínhamos encontrado uma forma de mover. Fizemos em três o que dezoito homens juntos não conseguiram. Agora dois homens e uma mulher com um tirfor moveram a orca.

A carga trabalho especificada para o tirfor era de até l.500 kg, mas puxávamos o dobro. s.


O SEGUNDO TIRFOR

Na segunda-feira, dia 14 de setembro de 1981, saímos bem cedo para obter outro tirfor com o responsável do setor de materiais da Cia. Álcalis. Às 9h30 já tínhamos o outro tirfor

Esse segundo tirfor foi fixado no alto da duna. Acionando ambos os mecanismos tracionamos o resto putrefato que a cada puxão se liquefazia numa gosma maligna.


MAIS DENTES ARRANCADOS

Quando engatamos os ganchos de tração nas alças do cabresto, percebemos que além dos três dentes arrancados no final de semana prolongado de 07de Setembro, estava agora faltando mais quatro dentes, totalizando sete dentes retirados da orca. Se ninguém havia se aproximado da carcaça, como foi que desapareceram quatro dentes?



Perplexos com o mistério imaginávamos que os dentes arrancados iriam surgir como um enfeite brega em forma de bracelete ou colar. O vigia do Projeto da Marinha afirmava que nenhum estranho se aproximara da baleia. Alguém conhecido? Depois descobrimos quem.


Não dava para entender o atrevimento de arrancar dentes para fazer penduricalhos.

Talvez nem isso. Talvez os dentes seriam esquecidos numa caixinha de badulaques jecas.


ENTERRAMOS A ORCA

Chegamos ao alto da duna. O mosquiteiro de nylon envolveu toda a carcaça. Uma costura fechou tudo formando uma fronha, um saco. A cova tinha 7,0m X 1,50m X1,20m. O pacote selado manteria todos os ossinho preservados como falanges e estribo do sistema auditivo.


O tempo de dois anos foi estimado para que os ossos ficassem livres dos tecidos moles, mas com a higidez necessária para serem transportados e remontados sobre um pedestal.


Lançamos areia e misturamos raízes para dar consistência à cobertura. Quando recolhíamos o material, uma forte rajada de vento soprou. As madeiras compensada que faziam a rampa para deslizar a carcaça levantaram voo e só foram parar na outra extremidade da praia.

 

ESCALA BEAUFORT 12

A força do vento alcançou o máximo da escala Beaufort. A nossa embarcação atracada perto da praia estava adernando e caturrando como um cabrito preso pelas narinas.

Para embarcar todo o material tivemos que enfrentar as ondulações que sacudiam o caíque. Para não sobrecarregar, fizemos várias idas e voltas entre a praia e o Mergulhão.


Decidimos deixar os itens muito pesados em um canto da praia. A distância até o Mergulhão não era maior do que 150 metros, e atravessaríamos em 2 minutos, mas a força do vento nos fez remar por mais de 20 minutos a cada ida para chegar ao barco .


A foto abaixo mostra a fragilidade do caíque na rotina de embarque na Praia dos Anjos.


AS EXPERIÊNCIAS E OS INEXPERIENTES

Embora o Israel fosse um tenente da Marinha, ele não tinha experiência marítima. Na realidade, é possível afirmar que nem eu, Marco Antônio ou Lola tínhamos antes enfrentado um embarque sob aquelas condições de vento e ondulações tão inóspitas. Soubemos depois que naquela noite  a velocidade do vento alcançou 60 Nós, ou seja, 111,12 (km/h).


Para trazer o tenente Israel à bordo, ao aproximar da praia uma ondulação virou o caíque. Daí o caíque ficou lá sob com o vigia, e convenci o tenente e a Lola a nadarem até o barco.

Mas, o tenente Israel não tinha habilidade para nadar. Não nadou. Ficou parado na praia. 


Quando percebi que o tenente não nadou, lancei um cabo atado a uma boia de arremesso para puxá-lo à bordo, mas a cada lance ele não conseguia pegar a boia. Com a escuridão, o tenente Israel não enxergava a boia arremessada. Entrei novamente na água e levei a boia de arremesso até o tenente Israel. No percurso de volta para o barco eu nadei puxando a boia em que ele segurava e, chegando ao barco, auxiliei o tenente a subir para o convés.


Há que convir, nada ser fácil quando não se tem experiência para enfrentar ondulações e vento fortes. A intensa era tal que o Israel desequilibrou e caiu na água pela popa do barco.

Com a escuridão, foi difícil localizar onde ele estava em meio as ondulações.


A força do vento e da correnteza logo o afastaram da embarcação. Saltei na água, nadei segurando o cabo de popa e o agarrei. Marco Antônio puxou o cabo e voltamos a bordo.


O Mergulhão estava com o motor engatado avante, mas não se movia um palmo em direção ao ferro e adernava como se de fato navegasse. Mantivemos a tração engatada para aliviar a tensão sobre o ferro danforth fixado na areia. Tentamos em vão mudar o barco para uma posição mais abrigada, mas nem sequer conseguíamos recolher as amarras.


Para se ter uma ideia o vento fez entortar o cepo da danforth de 20 Kg (Figura abaixo).


Conferimos o combustível para manter a máquina avante. Mantivemos as luzes de bordo acesas e combinamos fazer turnos para monitorar a resistência das amarras de proa.


A meia noite, a lua cheia apareceu por detrás da ilha e iluminou a baía de Arraial do Cabo.


Imediatamente com o nascer da Lua, a intensidade do vento reduziu. Suspendemos às 01h30 já do dia 15 de setembro, e na madrugada rumamos em paz para a Praia dos Anjos.


Leia no Cap. 07 o final dessa história fantástica que permanece até o presente. Você pode visitar a orca no Museu Oceanográfico de Arraial do Cabo.



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