CAP. 03 IMPRESSIONANTE
Atualizado: 4 de ago.
O que ocorreu a seguir é difícil, senão impossível de descrever. Foi assustador.
Ao ficarmos tomados de grave desânimo, a orca pareceu entender o que estava a suceder. Supreendentemente a orca se deu conta da condição. A orca percebeu que era o final.
É muito difícil explicar, mas é verdade.
A baleia demonstrou ter entendido que a equipe iria partir. Então, a orca ergueu o corpo todo para fora da fina lâmina de água onde estava, algo como um apelo de desespero.
Aquele movimento brusco não dá para descrever. Foi um ato de entristecer – algo terrível de se testemunhar. A orca começou a lançar sucessivas golfadas de vômitos. Durante o dia esses vômitos eram espaçados, mas agora eram contínuos, em jorros e lançados ao ar.
Os sons que emitia eram agudos, grunhidos de choro, de angústia. O corpo erguido estremecia e, de súbito virou para o lado e se deitou com a narina enfiada dentro da água.
Como um drama teatral, todo o contexto se agravou: a intensidade do vento aumentou. As rajadas de areia ficaram mais fortes, agora formando pequenos ciclones a nos açoitar.

Com a fraca luz vinda do barco Mergulhão observávamos a silhueta da orca contra o mar.
Ao recolher os cabos um membro da nossa equipe passou bem perto da orca, e de súbito, recebeu dela uma densa golfadas de vômito pastoso. Aquela substância gordurosa o acertou em cheio. O jorro o cobriu de cima abaixo. A gosma grudenta não lhe saía da pele.
O cheiro azedo ficou impregnado nele mesmo após entrar no mar e se esfregar. Aquela coisa gosmenta, aquele vômito fedido ficou impregnado nele para além do dia seguinte.
O DIA SEGUINTE (4 de setembro 1981)
Logo cedo, o tenente Benetti informou que o vigia disse pelo rádio que a orca morreu.
Logo a seguir, um repórter e um fotógrafo de O Globo chegaram do Rio de Janeiro. Eles foram à nossa residência em busca de informações sobre o encalhe. Entendemos ter sido os nossos amigos do sindicato SINTASA, na Urca, que repassaram a informação.
Recorte do Jornal O Globo, com a matéria publicada.

SALVAR A OSSADA E COLOCAR NUM MUSEU
Uma parte da equipe da AQUA-RIO assumiria a faina de salvar a ossada da orca para exibir no museu que a Marinha estava construindo em Arraial do Cabo. A nossa sugestão estava embasada no fato de até então ser a única ocorrência de orca encalhada na costa do Brasil.
O tenente Daniel Benetti acatou a ideia e novamente sugeriu obter ajuda do pessoal da Taiyo - a estação baleeira dos anos 1930 – 1960 - para completar a dissecação da carcaça.

Armação baleeira Taiyo Fishery Company: Praia dos Anjos, Arraial do Cabo, 1961.
Três ex-funcionários da Thayo foram localizados. Também, pessoal do Projeto Almirante Paulo Moreira da Silva se apresentou para ajudar. No entanto, sem razão aparente, houve animosidade quanto à nossa participação na faina de descarne. Fomos impedidos de atuar.
DE VOLTA AO JOGO
Uma oportunidade “milagrosa” surgiu quando o comandante da Base da Marinha não autorizou o uso do navio militar para levar o pessoal até a praia onde estava a orca. Então, a solução era a de utilizar o nosso barco Mergulhão para transportar a equipe organizada pelo tenente Benetti, e que incluía nela os repórteres do jornal O Globo. .
Rumamos desde o Porto de Arraial do Cabo de volta à Ilha de Cabo Frio. Levávamos dezoito pessoas a bordo. As ideias e presunções eram muitas, mas as ações que seriam necessárias antes de ter a ossada pronta para ser exibida no Museu eram imensas.
Durante a travessia, vimos o navio da Marinha no rumo contrário. Chamou-nos atenção estar a bordo um grupo de mergulhadores. Essa é uma história típica da ditadura militar.
DE VOLTA À ILHA
Chegamos à Ilha de Cabo Frio às 13h30. A ventania de Leste que no dia anterior açoitara a praia, estava suave, com indícios de que o vento Sudoeste entraria a qualquer momento.
Com admirável habilidade os ex-funcionários da Thayo iniciaram o descarne. Logo as vísceras ficaram expostas. O os órgãos eram removidos em meio ao sangue ainda quente.
Uma centena de gaivotas e urubus audaciosos foram atraídos pelo cheiro muito forte.
Os pedações de carne bem-aparados foram sendo depositados na areia, arrumados sobre uma camada de couro, para supostamente serem então repartidos com pessoal da região.
Para os japoneses o couro e a carne de orca é uma especiaria.

Após 90 minutos de trabalho o pessoal da Taiyo deu por encerrada a atribuição. Eles foram apenas demonstrar como dissecar. Levamos eles e os repórteres de volta a Arraial do Cabo.
Logo a seguir os demais ajudantes que compunham a comitiva formada pelo tenente Benetti anunciaram não “terem estômago” para continuar com aquele trabalho fétido.

Duas horas após o início do descarne apenas cinco pessoas continuavam a trabalhar. Infelizmente o vento forte da noite anterior agora estava fraco com rajadas geladas.
A maré subiu e alcançou a cabeça da baleia. A água fria do mar, o vento frio e o cheiro visceral nauseabundo formavam um conjunto a castigar os que ficaram a dissecar a baleia.
NADA É IMPOSSÍVEL
“Nada de desgosto, nem de desânimo; se acabas de fracassar, recomeça”. Marcus Aurelius

Literalmente entramos dentro da baleia, obviamente sem aludir a Jonas.
Continuamos a operação desarrazoada e fomos removendo as vísceras.
OUTRA NOITE CHEGOU
Estávamos apenas nós mergulhadores da AQUA-RIO. Então o tenente Benetti desembarcou do navio da Marinha; agradeceu e pediu desculpa por ter nos abandonado.
Na total escuridão não era possível continuar. Avaliando o resultado do dia de trabalho concluímos que rendera muito pouco em relação ao que havíamos pensado conseguir.
A tarefa era árdua, difícil, exaustiva, complicada, pesada e fustigante; fétida acima de tudo.
Encerramos a faina ao perceber que a maré alta logo alcançaria a carcaça da baleia.

Fincamos uma tora de madeira na areia acima da praia e amarramos a cauda de forma a ancorar a carcaça para que, pelo menos, a maré não a levasse para dentro do mar.
Leia no Cap. 04 sobre A ORCA NO ARRAIAL DO CABO que vai além de ser impressionante.




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