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CAP. 02 LIDANDO COM A ORCA

  • margarete2331
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

A ORCA ENCALHADA

Aproximamos da praia do Farol e vimos a orca deitada na areia. Apenas três pessoas estavam lá: tenente Daniel Benetti da Marinha; um pesquisador da Marinha e o Paulo Hargreaves, da SUDEPE, órgão da pesca que em 1988 se tornou um setor do IBAMA.


O Tenente Benetti tinha com ele um manual da International Whale Comission (IWC), traduzido pelo oceanógrafo Dr. José Truda Palazzo Júnior, para baleias encalhadas.


Para desencalhar, as instruções eram para aguardar a maré-cheia, pois qualquer esforço no seco aplicado sobre seu pesado e delicado corpo poderia causar dano a coluna vertebral.


Era uma orca fêmea com cinco metros e peso estimado em três e quatro toneladas.

Sabíamos que a maré voltaria a encher às 14h30 o que significava um período de seis horas. As instruções do IWC eram para aguardar no local e manter úmido o corpo da baleia.


Umedecendo o corpo com baldes de água foi possível preservar a temperatura corporal.


REGISTRO DA OCORRÊNCIA

Algumas características foram anotadas num registro, como uma descoloração com curvas harmônica na região negra do dorso e uma falha acentuada na nadadeira caudal, dentes inferiores frontais gastos e uma lesão no contorno da nadadeira peitoral. Isso permitiria reconhecer o indivíduo em outros encontros, se conseguíssemos desencalhar com vida.


POUCOS RECURSOS

Um lençol branco molhado foi colocado para manter o couro umedecido. Cavamos um buraco por debaixo e passamos toras para afastar da areia, evitando ataque de crustáceos.


Percebemos que em intervalos de 1h30 a orca emitia algo como um “choro” melancólico,

 seguido de jorros de vômito e espasmos que sacudiam o corpo do cetáceo.


DOCUMENTAÇÃO COM IMAGENS

Filmamos com câmera Super 8 e fotografamos os detalhes individuais do animal.

Após seis horas de espera a maré finalmente encheu de forma que a lâmina d’água alcançou o ponto máximo para aquela fase da lua. Mas, a profundidade não foi suficiente para a baleia nadar. Logo a maré voltaria baixar impedindo que a orca saísse do encalhe.


Segundo o que o Manual IWC explicava, as baleias são capazes de permanecer em encalhes por dezenas de dias, desde que o corpo seja mantido umedecido e esfriado, além de protegido contra-ataques de crustáceos. Para isso, o Manual IWC sugeria que sejam organizados turnos e abrigo, para que equipes possam empregar os recursos básicos.


Não tínhamos esses recursos básicos, nem tampouco equipes para trabalhar em turnos.


O trabalho que realizamos foi voltado a proteger contra os pequenos crustáceos que invadiam as rachaduras do couro e provocavam aumento do sangramento. Também, protegemos as mamas, vagina e os olhos. Pudemos preservar a temperatura e o corpo umedecido durante o dia todo. Com o anoitecer a temperatura caiu drasticamente.


Estávamos lá por mais de dez horas, sem agasalhos ou qualquer tipo de alimento. Exaustos e sem nenhum recurso básico, percebemos que não haveria como continuar. Com vento frio a soprar forte do quadrante leste, com fome e roupas molhadas, concluímos que a maré estando a baixar, logo não haveria hipótese de desencalhar a baleia.


Então, como derradeira tentativa, amarramos alguns cabos navais para arrastar a orca em direção ao mar, usando a tração do nosso barco. Uma desajeitada tentativa , pelo menos.


UMA POSSÍVEL AJUDA

A embarcação que dava apoio aos funcionários do Projeto de Pesquisa da Marinha surgiu do outro lado da enseada que a ilha forma com a ponta do Atalaia. Resolvemos então aguardar, pois tanto a potência do motor como os cabos navais daquela embarcação eram bem mais fortes do que os nossos. Combinar os esforços era uma tentativa, pelo menos.

Quando o barco aproximou da praia, constatamos que à bordo estavam dois casais. Não soubemos a razão de terem vindo, mas a presença deles apenas serviu para atrasar a faina.


Naquele cair da noite, o vento aumentou de intensidade tornando qualquer operação ainda mais difícil. O pior foi estabelecer as distâncias de segurança a serem mantidas. Os cabos navais da embarcação da Marinha não eram longos suficiente para chegar até a praia. A noite chegou rápido e não havia luzes. A escuridão era total. Nem luz da lua havia.


Emendamos cabos navais para cobrir a distância, mas devido ao frio, escuridão, marinheiros sem experiência, exiguidade de tempo e o vento soprando e aumentando as ondas que empurravam a orca ainda mais para a praia, dificultando aplicar os nós do cabrestantes.


O PONTO CRÍTICO

Estávamos conscientes do desafio assumido. Não tínhamos ideia do porquê ocorrera o encalhe, e não conseguíamos projetar o que poderia ocorrer após desencalhar. Havia a possibilidade de causar lesão a orca e, como resposta a baleia atingir as embarcações.


Devido ao avançado da hora, da escuridão, do vento forte, da inexperiência e da falta de recursos especiais chegamos ao ponto crítico: se não movêssemos a orca para a água com a maré no nível em que ainda estava, seria quase certo que durante a noite, com a baixa da maré, os crustáceos fariam um grande estrago ao invadir os orifícios naturais e as feridas.


O espiráculo estava fora da água. A cabeça virada de lado para a praia e nadadeira caudal dentro d'água. Os cabos dos barcos foram lançados e ajustados ao redor da cabeça.


A manobra de arrastar deveria manter sempre a cauda voltada para dentro d'água. Os movimentos de tração dos barcos deveriam ser conjugados, para isso a comunicação entre o maquinista da Marinha, o nosso marinheiro e o pessoal na areia deveria ser por sinais.


Na embarcação da Marinha estavam três homens responsáveis por uma carga que deveria ser transportada para Arraial do Cabo. Eles não queriam se envolver naquela operação.

Reiteradamente reclamavam de estarem sendo atrasados por uma faina que era deles. Explicavam que como funcionários públicos da Marinha o turno já havia esgotado. Eles ainda teriam que atravessar a enseada e descarregar a carga no porto de Arraial do Cabo.


AOS GRITOS

Devido a escuridão as comunicações eram aos gritos, mas o ruído do vento cobria o som das vozes. Isso aumentava o estresse. Assim, em vez de aguardar o comando, o maquinista irritado deu máquina à frente e a embarcação arrancou sem o controle sutil. Com o tranco, o cabresto escapou. Aqueles homens desistiram e navegaram rumo a Arraial do Cabo.


Ficamos desolados, abatidos. A operação falhara. Foi um dia de esforços frustrados.



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