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A AMÉRICA DE AMÉRICO E O BRASIL DE CABRAL

Foto do escritor: Randal Fonseca
Randal Fonseca
6 de jul.
27 min de leitura

Atualizado: 15 de jul.

ARQUEOLOGIA DO NAUFRÁGIO DE IDENTIDADE OCORRIDO EM 1503.

A partir de 1507, o vocábulo América foi adotado pela maioria dos eruditos e, em 1570 se sobressaiu com o Atlas “Theatrum Orbis Terrarum,” de Ortelius, um discípulo de Mercator.


America of Amerigo or Brazil of Cabral: archeology of an identity shipwreck.


Randal Fonseca, 1988                                                                 Seán McGrail, 1984

“Quando nos referimos com propriedade ao passado, (...) somos chamados de eruditos”


INTRODUÇÃO

Reflexões aprofundadas sobre a Campanha de Busca e Localização do Primeiro Naufrágio no Brasil (1503), registrado por Américo Vespúcio quando da última viagem lusitana de reconhecimento da costa.


A pesquisa arqueológica suscitou uma revisão historiográfica com intervenções náuticas e subaquáticas realizadas por Randal Fonseca em Cabo Frio e Fernando de Noronha.


A METODOLOGIA DA PESQUISA

A referida Campanha de Busca e Localização do naufrágio se baseou em estudos de Márcio Werneck da Cunha (1944 - 2004) que, como historiador, dedicou grande parte da sua vida aos estudos historiográficos das viagens de Américo Vespúcio ao Brasil.


Por um lado a busca pelo sítio do naufrágio revisou as possíveis rotas náuticas de aproximação da Nau na noite de 10 de agosto, e por outro lado cumpriu a metodologia arqueológica orientada à cultura material, eventualmente remanescente desse episódio.


A Campanha trouxe à luz a intencional construção da identidade do “Brasil de Cabral” e fez um contraponto com a revelação histórica do continente descrito por Américo Vespúcio.


A CONTROVÉRSIA

Vale ressaltar que o Projeto “América de Américo OU Brasil de Cabral” só foi possível devido a determinação do mergulhador Randal Fonseca, que se posicionou à frente das etapas iniciais de campo realizadas em Cabo Frio (1983) e, posteriormente concluídas no arquipélago de Fernando de Noronha (1992).


Os estudos historiográficos realizados por Cunha na década de 1980 foram associados a investigações submersas na entrada do Canal de Itajuru, pela mergulhadora da AQUA-RIO, Lola Fritzsche, desarticulada da Arqueologia brasileira. O resultado final da Campanha, foi apresentado por Randal Fonseca na SAB 1993 – João Pessoa, PA.


Fonseca reiterou diante da Sociedade de Arqueologia que a “navegação ultramarina” e a “Arqueologia Subaquática” foram temas investigados como um conjunto inseparável.

A abordagem de Fonseca se contrapôs ao que tradicionalmente o universo arqueológico, excluía dos estudos, pois a “navegação” não era ciência para a Arqueologia erudita.

Segundo especialistas em estudos arqueológicos marítimos e historiografia da navegação isso constitui um “fenômeno de exclusão temática”, que não ocorria apenas no Brasil.


Essa separação decorria de uma certa antipatia geral pelo tema náutico, devido as diferenças existentes entre homens do mar e da terra (MCGRAIL, 1997; BLOT; 1999; que infelizmente impedia a conjugação desses estudos.


Em 1985 o Titanic foi localizado e, em 1986 as investigações reforçaram a posição de Fonseca no sentido de unificar os estudos arqueológicos marítimos com a historiografia da navegação. De fato, isso foi feito em F. de Noronha utilizando sistema de detecção trazido pelos arqueólogos dos Estados Unidos, após a queda do Muro de Berlim em 1989.


O suporte de Craig Benson e Charles Green da Universidade de Syracuse contribuiu para localizar os vestígios da Nau de 1503, sendo marco histórico na Arqueologia Subaquática.


AS INVESTIGAÇÕES HISTÓRICAS

Considerando a questão da identidade “cabralina” consagrada no Brasil e, considerando a pouca importância atribuída pela historiografia tradicional relativamente aos relatos de

Vespúcio, o não acadêmico Márcio Werneck da Cunha defendeu sua posição científica. Esse trabalho inédito rendeu a Cunha o título de Doutor Honoris Saber pela UERJ.


Desde o início da década de 1980, Cunha colocara em curso uma pesquisa histórica que deixava em aberto a investigação arqueológica no fundo do mar, para comprovação de fatos deturpados, em face das políticas ultramarinas das potências europeias da época.

A necessidade da comprovação material criou a demanda arqueológica sem precedentes.


A PROPOSTA

Enquanto a Arqueologia brasileira se dedicava quase que exclusivamente ao período pré-cabraliano, havia poucas ou mesmo raras exceções para o período pós-conquista europeia.


Cunha aproveitou a oportunidade de estudar documentos históricos pouco apreciados pela Historiografia Oficial, e foi além, ao propor a investigação em campo por meio de uma Arqueologia Subaquática, contradizendo e espancando aquela “surrada” ideia de a Arqueologia Submarina ser apenas uma ferramenta a ilustrar a história trágico-marítima.


Os registros materiais das viagens de Vespúcio, e em particular da Quarta Viagem, segundo Cunha, estariam enterrados no substrato das águas do Canal Itajuru no Cabo Frio (RJ), e em algum lugar no fundo do mar no entorno do arquipélago de Fernando de Noronha.


A SOMA DOS REGISTROS

Então, os dados materiais que viessem à luz por meio da arqueologia submarina, poderiam definitivamente consubstanciar as informações descritas por Vespúcio, tanto nas cartas aos familiares como nas “adaptações impressas” (GUEDES, 1975 apud CUNHA, 2004:56).


Segundo Guedes (1975), “as adaptações impressas” eram nada mais do que descrições genéricas e romanceadas capazes de interessar a um público ávido por notícias exóticas.


As informações estavam a entrar no imaginário mundial” (CUNHA, 2004:56) como resultado das Grandes Navegações do século XVI: período no início liderado por Portugal e Espanha.


VIAGENS DO DESCOBRIMENTO

Vale ressaltar que neste universo dos homens do mar, as viagens dos “descobrimentos” contaram com a participação de marinheiros eruditos, como Vespúcio, capazes de produzir dados científicos significativos que (felizmente) não foram menosprezados pela ciência.


Guedes (1975) enfatizou por exemplo, que embora Vespúcio nas viagens de 1499 – 1500, não soubesse determinar a latitude pela altura meridional do solar, aprendera a fazê-lo a tempo de empregar seu novo conhecimento nas navegações:1501/1502 e de 1503 /1504. 



A TEMÁTICA “AMÉRICA DE AMÉRICO”

O título do livro escrito por Marcio W. da Cunha, “América de Américo”, foi inspirado na produção de informações originais do navegador Américo Vespúcio sobre o Brasil, portanto passou a ser um contraponto a Carta de Caminha que apenas legitimou a “descoberta” de novas terras por Cabral. Cunha justifica que Cabral ficou limitado apenas a uma pequena porção do litoral brasileiro, enquanto Vespúcio foi além, chegando até a região do Lagamar.


Dessa forma, e com razão, Américo Vespúcio serviu de inspiração à toponímia América.


AS CARTAS DE VESPÚCIO

As informações contidas na “Lettera di Amerigo Vespucci delle isole nuovamente trovate in quaro suoi viaggi”, se tornaram públicas em Florença (1505-1506) e, mais ainda quando as cartas endereçadas ao compatriota Pero Soderini foram traduzidas para o Latim.


O então cartógrafo alemão Martin de Waldseemüller inseriu os dados na obra de própria autoria “Cosmographie Introductio”, onde o tedesco afirmou que o continente foi denominado de “América” porque foi Vespúcio que o revelou (CUNHA, 1985).


Martin de Waldseemüller explica o motivo:

“Hoje, estas partes da terra (Europa, Ásia e África) já estão perfeitamente exploradas e uma quarta parte do mundo foi descoberta por Américo Vespúcio (...); não vejo motivos para que não se chame, do homem sagaz que a descobriu, Amerigen (...) e, pode-se esclarecer exatamente a situação desta terra e os costumes de seus habitantes pelas navegações de Américo Vespúcio” (CUNHA, 2004).


“Vespúcio revelou um continente (WALDEESMULLER, 1507)” e, segundo Rosin (1979) “um mundo novo descoberto fez escola nos principais centros culturais europeus durante as primeiras décadas do século XVI” (CUNHA, 2004:65).



A historiografia ibérica, no entanto, abdicou da toponímia “América” para adotar a referência de Índias Ocidentais e, somente declinou desta designação recalcitrante no século XVIII, quando no mundo já se encontravam consagrados os feitos de Vespúcio.


Sob a ótica espanhola, as "Índias Ocidentais", o atual continente americano, era percebido como fonte de riqueza: um desafio civilizacional e um território de expansão da fé católica.



A NEGAÇÃO A VESPÚCIO

A historiografia portuguesa atribui o “descobrimento” da outra borda do Atlântico a Cabral, renegando Vespúcio – talvez pela origem florentina do navegador –; assim como, as referências espanholas atribuem a Colombo o “achamento” das novas terras.


No entanto, essas são as terras que perfazem o continente americano (de Américo).

Paradoxalmente, sob a ótica da identidade, se tornou necessária uma abordagem descomprometida das vertentes políticas que envolviam a história tradicional; aquela sobre um território construído pelas revelações, em primeira mão, de Vespúcio (CUNHA 1981).


A IMPORTÂNCIA DE INSISTIR

A investigação documental e arqueológica voltada para as questões “vespucianas”, proposta por Cunha, teve início em 1981 na Cidade de Cabo Frio, tendo com Fonseca, em 1985, se estendido ao arquipélago de Fernando de Noronha (PE).


Foram esses dois pontos de apoio que consubstanciaram a tese de comprovação da Quarta Viagem de Américo Vespúcio, rejeitada pela historiografia tradicional.


 Vespúcio, na ilha de Fernando de Noronha, deixou pistas evidentes que contribuíram com a confirmação material, pois em seu relato da viagem ele descreveu o naufrágio da Capitânia de Gonçalo Coelho que comandava a esquadra de cinco naus em 1503.


Diz a Lettera escrita a 4 de setembro de 1504 por Vespúcio em Lisboa:

“(...) foi esta ilha para a armada malfazeja: porque saberá V. M. que por mau conselho do nosso capitão-mor qual ele perdeu sua nau, dando com ela em um escolho e se arrombou na noite de São Lourenço, que é a 10 de agosto, afundando. Dela não se salvou cousa algum senão a gente. Era uma nau de 300 tonéis na qual ia todo o importante da frota (...)” 


Julga-se que a Lettera foi impressa por Gian Stefano di Carlo di Paiva para o livreiro Florentino Piero Pacini, em 1505 – 1506. Dessa primeira e única publicação só existem três exemplares:

  • Uma no museu Britânico;

  • Uma na Biblioteca Palatina de Florença;

  • (Uma na Biblioteca da Universidade de Princeton


A Universidade Princeton publicou fac-símile em Vespucci Reprints: text and studies (1916).


É IMPORTANTE RESSALTAR

Embora existissem argumentos persuasivos baseados em evidências textuais indiretas, podia ocorrer que não fosse possível produzir numa investigação arqueológica com as comprovações materiais suficientes para mudar a insistente historiografia “cabralina”.


Tanto a historiografia, como a etnografia comparativa podiam indicar algumas reflexões com relação às identidades. A Arqueologia Subaquática pretendida por Fonseca (1985) poderia, com o auxílio de outras ciências, trazer respostas que contribuiriam para ajudar a mapear os "caminhos marítimos" que haviam sido seguidos por esses navegadores.

Daí, seria possível atribuir-lhes os méritos devidos conforme suas mais prováveis participações nas injunções históricas que deram origem ao Novo Mundo.


DISCIPLINAS QUE VIERAM EM SOCORRO

Neste contexto interdisciplinar foram aditadas informações publicadas em 1973, encontradas no American Museum of Natural History Novitates: no artigo "Amerigo Vespucci the Rat of Fernando de Noronha: a New Genus and Species of Rodenia (Muridae: Sigmodontidae) from Volvanic Island Off Brazil´s Continental Shelf".



A investigação conduzida por Olson A. Roppa, do American Museun Novitates, e assistida pelo Instituto Oswaldo Cruz, com agradecimentos a Dra. Maria Claudia L. Malabarba do Museu de Ciências de Porto Alegre, objetivou o trecho da Lettera em que Vespúcio relata seu desembarque na malfazeja ilha, em uma enseada “favorável para “fazer surgir as naus”, e procurar por víveres e água, onde em Latim (traduzido para o Inglês) se lê:


“[The] island we found uninhabited, and it contained plenty of threes, and so many birds, both marine and land, that they were without number … and we saw no other animals except very big rats and lizards with two tails, and some snakes. (Emphasis ours: translation of the original Italian text from Branner (1888:869)”.


UM TRECHO DA LETTERA

Os geógrafos assumiram que a pequena ilha descrita por Vespúcio, situada a 3 graus ao Sul do Equador era Fernando de Noronha (BRANNER, 1888; RIDLEY, 1888). No entanto, a corrente historiográfica brasileira considerava questionável ter existido esta Quarta Viagem de Vespúcio ao Novo Mundo, com isso, desacreditando o seu desembarque em Fernando de Noronha e seus relatos sobre a vida animal, principalmente no que toca a existência de um mamífero descrito como um “enorme rato” (ROPPA, 1999).


A CONFIRMAÇÃO IRREFUTÁVEL

Durante uma expedição à Fernando de Noronha realizada em 1973, Roppa descobriu fosseis de vertebrados nas dunas antigas situadas na extremidade Leste da Ilha de Fernando de Noronha (a principal). Dentre o material resgatado, era abundante e bem preservado os ossos de uma espécie inusitada de roedor sigmodontine, com dimensões de moderada para grande e pertencente a uma variação de Oryzomyni da América do Sul.


Este roedor extinto, foi classificado como um novo gênero e espécie, e catalogado com primazia pelos bio-paleontólogos como “Holochillus (Holoceno) Noronhomys vespucii”. 


O achado, portanto, comprova a existência de uma espécie endêmica de Fernando de Noronha e corrobora com os detalhes biológicos creditados a Vespúcio por ocasião da quarta viagem, dando, desta forma, autenticidade aos relatos.

Exemplares dos fósseis do Rato Saltão são atualmente mantidos no:

  • Museu da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul;

  • Paleobiologic department do National Museum of Natural History, New York City; 

  • Field Museum of Natural History, Chicago;

  • National Museum of Natural History, Smithsonian Institution, Washington D.C.


ARQUEOLOGIA NO AMBIENTE INSULAR OCEÂNICO

Na circunstância em que se encontrava a política governamental brasileira no início da década de 1980, à mercê da ditadura militar, a proposta de estudos a partir de documentos que conduzissem e pudessem produzir provas materiais, simultaneamente nos dois polos da costa brasileira visitados por Vespúcio (Fernando de Noronha e Cabo Frio), tornara-se uma tarefa titânica (CUNHA, 2004).


Além da política militar, foi necessário lidar com o "imaginário coletivo" da população insular que preferia acreditar que as buscas submersas pelos vestígios da Nau de 1503, estivessem direcionadas a resgatar os tesouros que estavam a bordo da Capitânia.


Esse fetiche de "tesouros" a bordo de uma viagem exploratória, foi muito agravado quando no dia 20 de julho de 1985, Mel Fisher localizou o naufrágio do galeão espanhol Nuestra Señora de Atocha, afundado em 1622 após um forte furacão na costa da Flórida.


O fetiche popular não considera a História e coloca naufrágios num só pacote imaginário.

Em Noronha, a narrativa era de o "Tesouro de Vespúcio" estar sendo enviado para os EUA.


SERIAM VESTÍGIOS, APENAS VESTÍGIOS

Os vestígios pretendidos, tanto da fortaleza-feitoria de Cabo Frio, como da nau Capitânia de 1503 em Noronha, foram comprovados por meio de uma arqueologia subaquática e pelos fósseis do roedor, conduzida com a oficialização governamental brasileira, chegando a inserção dos "navegadores descobridores” no panteão dos heróis nacionais.


O “Projeto de Busca e Localização do Possível Sítio do Naufrágio da Capitânia de 1503”, intitulado “América de Américo”, iniciado em 1983 na cidade de Cabo Frio, foi complementado no arquipélago de Fernando de Noronha, e demonstrou como o projeto “Brasil de Cabral” foi ideologicamente construído e sustentado pelos eruditos, autoridades e historiadores, que não podiam ser questionados pela tradicional historiografia lusitana.

O livro América de Américo, foi publicado um pouco antes do falecimento de Cunha (2004), que nele descreveu as peripécias vividas em Cabo Frio e em Fernando de Noronha, nas quais, em ambas, Randal Fonseca como mergulhador interessado e altruísta, se mostrou desinteressado daqueles projetos idealizados e rejeitou ser subsidiado pela Lei Ruanet.


Vale dizer que a sensibilização pela temática e, por viver e conviver no universo dos homens do mar, a condução do trabalho documental de Cunha motivou Randal Fonseca a empregar recursos financeiros e operacionais próprios, subsidiando Cunha a conduzir as pesquisas historiográficas, e sustentar as investigações subaquáticas pela AGUAS CLARAS.


Essas empreitadas não contaram em nenhum momento com a participação da Arqueologia Brasileira que, paradoxalmente e confortavelmente, preferiu se manter à margem, fixando-se na sua contumaz visão “agrocêntrica” (RAMBELLI, 2003).


DETALHES DAS INVESTIGAÇÕES SUBAQUÁTICAS

As primeiras imersões foram realizadas em 1983 pelos mergulhadores da AQUA-RIO Centro de Atividades Subaquáticas de Cabo Frio, na entrada da barra do Canal de Itajuru, em busca de vestígios de navios seiscentista que, de acordo com as pesquisas documentais, teriam demandado aquele abrigo natural, em face do posicionamento estratégico de duas ilhas que dão perenidade ao braço de mar com profundidade navegável.

O local (acima) teria sido ideal para abrigar embarcações – ancoradouro natural –, devido às suas excelentes condições geomorfológicas. O problema é que em 1983 a área já estava sendo assoreada pelos dejetos lançados na Lagoa de Saquarema. Mas, a partir de cálculos sobre a alteração de profundidade da enseada, desde o século XVI, foram traçados os possíveis perfis da antiga boca da barra lagunar e iniciada uma série de prospecções. Estas, realizadas com uso de "venturi" para remover o sedimento arenoso. Isso revelou aglomerados de pedras que, pela forma fariam parte do lastro das embarcações seiscentistas que estiveram por lá (RAMBELLI, 1998; 2002), (CUNHA, 2004:34).


Outras investigações historiográficas conduzidas por Cunha traziam gradativamente à luz das expectativas os elementos que justificavam acreditar que o naufrágio da Capitânia de 1503 poderia ser comprovado se os vestígios fossem localizados em Fernando de Noronha.


Foi daí que se deu o apelo a Arqueologia Subaquática, ou algo similar, pois, o conceito dessa Arqueologia era inexistente em 1983, pelo menos oficialmente: (RAMBELLI, 2002).

Somente através do mergulho o projeto poderia produzir provas materiais do naufrágio, que se somariam àqueles da Barra do Canal de Itajuru e consubstanciariam os relatos da Quarta Viagem, colocando em xeque a historiografia tradicional dos eruditos da época.


HISTÓRIA, CIDADANIA E AMBIENTE NA ARQUEOLOGIA PÚBLICA

Em Fernando de Noronha, as autorizações para realizar as pesquisa submarina foram todas obtidas conforme as exigências legais vigentes, gerando farta documentação oficial em nome da Fundação Américo Vespúcio, e das duas empresas executoras: Águas Claras Produções Submarinas Ltda. (Fernando de Noronha, PE) e Uma Cultural (Cabo Frio, RJ).


Com base na documentação, o projeto América de Américo foi encaminhado, pelo então Ministro Sérgio Telles das Relações Exteriores, à vice-Presidência da Comissão Nacional Espanhola para o V Centenário – Doc: 134, SADC L00 236, de 02/07/1992, onde se lê:


“Urgentíssimo: (...) trata-se de iniciativa pioneira em matéria de investigação arqueológica submarina, desenvolvida em Unidade de Conservação com tecnologia de pesquisa compatível com a proteção ambiental”


O resultado da Campanha de Busca e Localização do Naufrágio de 1503 integrou também, com destaque, o elenco de ações científicas, culturais e ambientais, encaminhado pela então administração do arquipélago à ECO 1992, Rio de Janeiro, e, no ano seguinte, os detalhes técnicos foram apresentados por Randal Fonseca no Congresso da SAB (1993) em João Pessoa, Paraíba, e em 2014 na FERNAVE, em Lisboa, com a Editora RTI-PORTUGAL.

Foi possível demonstrar nas esferas oficiais que a Campanha tinha notória consistência na forma e no conteúdo da pesquisa historiográfica e de investigação submarina, mas ainda encontrava resistência dentre os empedernidos detratores, mesmo após ter sido validada.

Foi então que a difícil questão vespuciana encontrou a solução de uma forma simples.


CORTAR O NÓ GÓRDIO

A expressão "cortar o nó górdio" é usada quando um problema difícil não tem solução pelo caminho simples. Então, o Nó da Campanha foi desatado com os fosseis dos ratos e, a comprovação teve um desfecho com valor inestimável para o povo noronhense.


NA LETTERA, VESPÚCIO RELATOU(...) “[A] ilha encontramos desabitada, e ela continha muitas árvores, e profusão de aves, tanto marinhas quanto terrestres, que eram incontáveis … e nós não vimos nenhum outro animal exceto ratos muito grandes e lagartos com duas caudas, e algumas serpentes.[Texto traduzido do original italiano de Branner (1888:869)].


A IDENTIDADE DO POVO NORONHENSE

Para entender o "valor" da identidade de um povo é preciso conhecer e reconhecer a sua história. No caso da população de Fernando de Noronha, quando lá chegamos em 1985, encontramos pessoas que se ressentiam das suas origens associadas ao presídio.


É IMPORTANTE LEMBRAR

A estrutura de defesa do arquipélago é atribuída ao engenheiro espanhol Diogo da Sylveira Vellozo e, após terem sido ativadas foi registrada uma significativa redução de invasões às terras continentais do Brasil. Os invasores já não mais podiam dispor do ponto de apoio, daquela benigna "estação de repouso" que Noronha oferecia, para que pudessem "afiar as espadas, obter alimento, água e restabelecer as energias" antes de invadir o Brasil.

A estrutura de defesa foi utilizada como colônia penal para banimento de indesejáveis da Coroa Portuguesa, a exemplo tanto de militares insubordinados, como criminosos comuns.


EFEITOS DELETÉRIOS

Os residentes com origem nas famílias dos guardas da prisão, como de descendentes dos prisioneiros, ficaram estigmatizados criando um negativo sentimento de baixa autoestima.


EXEMPLO DE SUCESSO

O fenômeno que a Arqueologia Náutica produziu no Círculo Polar Ártico.


A VISÃO DO "AI-QUE-LINDO" OFUSCOU A HISTÓRIA

À parte da relevância que as festividades em SEVILHA 1992 suscitavam, interesses casuísticos estavam dando maior visibilidade às então "belezas ambientais" que, à época, as imagens submarinas de Fernando de Noronha produziam no público leigo e acadêmico. Diante da visão do "ai-que-lindo" o conceito "Ciência e Cultura" se tornou irrelevante.


Os elementos obtidos em campo, que concorriam para produzir provas materiais sobre a viagem do florentino em 1503, não fora suficiente para encetar a almejada discussão proposta por Cunha: a possível identidade de um “Brasil americano”. Mas algo mudou.


A visão de mundo mudou. Os interesses pela História arrefeceu. A visão de paraíso venceu.

Se colocarmos uma lupa sobre a história do território insular e examinarmos o contexto retirando dele as propositalmente distorcidas "visões de paraíso”, é possível enxergar como se pode disfarçar a brutalidade sob o manto do “Mito da Natureza Intocável”

LER: Antônio Carlos Diegues.


A HISTÓRIA ÉPICA E O CONSUMO LÚDICO

Vale ressaltar que consumo lúdico é o ato de adquirir produtos, serviços ou conteúdos cujo propósito é o entretenimento, a diversão, o prazer ou o lazer, e não a necessidade básica.


O consumo lúdico foi impulsionado pelo desejo de vivenciar experiências sensoriais, emocionais ou recreativas em subdimensões específicas da experiência comportamental.


A PURIFICAÇÃO

Sendo uma comunidade insular, herdeira de uma história trágica, o arquipélago de Fernando de Noronha entrou no cerne dos debates que tratam dos locais privilegiados, aqueles espaços que se desenvolvem apesar das maldades, das perfídias de um passado e a despeito das evidências do inconcebível sofrimento humano, e se torna objeto de desejo.


Fernando de Noronha tem hoje sua essência social revestida daquele manto vestal que convenientemente idolatra o presídio Colonial ficando assim isento das culpas. Será? 

Este é um aspecto essencial que, para ser percebido e aproveitado, dependerá do filtro a ser aplicado a visão do visitante, apartada por um prisma ecológico purista da história.


Depois de cinco séculos as áreas insulares estão agora destinadas a operar a redenção, como uma caldeira de depuração para transformação social com dimensões multiculturais.


Num sentido mais profundo, se enceta que ao mergulhar no mar oceânico e vivenciar o caráter específico da ilha, dos seus atributos naturais e dos seus habitantes, da cultura, da identidade ilhoa é que ocorre o enlace edificante entre o nativo (que deu origem a história), com o conviva que agora é o sujeito de uma história que está sendo construída.

Os desatinos nos grandes centros amplificam cotidianamente o duelo infame travado na luta insana da sobrevivência anônima e do consumismo insólito que ignora a história-real.


Esses aspectos epistemológicos mais profundos são lícitos de se reiterar, pois a curta memória da patuleia, como por encanto, apaga o fato notório de que o arquipélago desde a colonização das terras de expansão econômica portuguesa no além-mar, foi contumaz espaço destinado a ser um depósito de indesejáveis, por mais de 200 anos.


AS ILHAS E SUAS FUNÇÕES DÍSPARES

Muitas ilhas do mundo foram destinadas a presídios, como a Ilha Robben na África do Sul, a Ilha do diabo na Guiana Francesa, a Ilha Grande na Baía de Angra dos Reis, a Ilha Anchieta no litoral norte de São Paulo, a Ilha de Alcatraz na Baia de São Francisco, Califórnia – EUA, e outras ilhas menos famosas.


Na ilha principal do arquipélago oceânico brasileiro foram despejados pelos colonizadores os anátemas, corrompidos e corruptíveis, detentores de muitos atributos demonizados, como os capoeiristas, que a sociedade oitocentista baniu para além do horizonte, de forma conveniente a “ocupar” o território insular para proteger contra as invasões estrangeiras.


O ambiente das ilhas-presídios, e não apenas Noronha, é impossível de se imaginar, mas podem ser descritos como "inferno no mar”, em que nem os demônios queriam lá habitar.


As ilhas de Fernando de Noronha, neste sentido, favorecem exemplificar como o atual ensejo lúdico embasado por narrativas eivadas de criatividade descrevem subitamente o destino macabro agora como um “paraíso insular”, contrapondo ao significado que essas mesmas ilhas, em um passado muito recente, serviam de receptáculo dos execrados.


A PURIFICAÇÃO DO AMBIENTE

Embora saudável sob a ótica da expurgação, é notória essa intenção radical de percepção. Subitamente se dá uma transformação da visão popular que, no meado da década de 1980, como num passe de mágica começa a enxergar o Érebo insular sob a ótica de santuário.

Passam as ilhas a serem elevadas ao ícone do desejo santificado, fazendo contraposição com as áreas continentais que estão com prazo vencido, ditas infectadas, desregradas e às quais a criatividade da OMS atribui às supostas e intrigantes "mudanças climáticas”.


As ilhas-presídios entraram no rol de destinos de visitação como mercadorias saudáveis, livres das penalidades climáticas e dentro do prazo de validade para acolher os descolados que, a bordo de cruzeiros marítimos bregas, chegam ansiosos para aplaudir o pôr-do-sol.


A partir da percepção filtrada por um prisma eco ideológico purista, construído por narrativas bem-ensaiadas, o tradicional local oceânico de degredo, ganhou feições pitorescas como caldeira de depuração e expiação de pecados a operar a transformação.


EM DETRIMENTO DA CIÊNCIA

Neste sentido, o ideal seria que esses espaços fossem utilizados para alertar sobre os factoides e, no ensejo, aproveitar para repassar conhecimentos aos que lá desembarcam para que entendam que o pensamento ecológico, per se, não é um deus – mas que as atividades recreativas bem-orientadas colocam o cliente em relação ao espaço: ficam “um em relação ao outro” para entender que não estamos no universo, nós somos o próprio universo. Esta percepção dá o sentido máximo de valoração ao que é o pertencimento.


CONCLUSÃO

Em 1507, a Lettera desobedeceu ao “segredo de Estado” imposto por D. Manoel I.

Até o momento da publicação deste artigo, o sítio da Capitânia de 1503 continua sendo mantido em “segredo”, no perfeito estilo seiscentista e, como sugeriu Randal (abaixo).


(...) Quando em 1993 as autoridades de plantão em Fernando de Noronha solicitaram que (Randal Fonseca) informasse as coordenadas geográficas onde estavam localizados os vestígios que comprovaram o naufrágio da Capitânia de 1503, o que se ouviu ele dizer foi:


“senhores, se o navio está lá há mais de 500 anos, então poderá ficar lá com toda segurança, sem pressa, por tanto tempo quanto seja preciso, aguardando até que se ajustem os interesses da política nacional, da História nacional, e da historiografia nacional com as melhores práticas da Arqueologia Pública nacional”.


Os ensinamentos de Seán McGrail (1984) reiteraram aos eruditos que:

“o estudo arqueológico de navios demanda especialistas com grande experiência, que em geral, não podem ser encontrados dentre arqueólogos tradicionais – o que se busca obter a partir de investigação arqueológica de um navio é amplo e irrestrito, podendo inclusive decidir-se manter preservado no local para as futuras gerações, onde arqueólogos podem querer investigar à luz de novas questões e conjunturas".


A REDENÇÃO ACONTECEU

O povo de Fernando de Noronha, como dito acima, apresentava significativa baixa autoestima. A população até 1988 era mantida sob o Comando das Forças Armadas estacionadas no arquipélago. Além de comandante militar, o designado para o cargo acumulava a função de Governador do então Território Federal de Fernando de Noronha.


Governar os civis, até certo ponto, era considerado como uma atribuição inoportuna, mas essencial, pois a soberania das ilhas dependia da ocupação civil. Ou seja, se fossem apenas militares a manter o domínio territorial, outras nações poderiam disputar esse direito, seja lá qual viesse ser a justificativa. É lícito lembrar que em 1986, o acordo de Montego Bay havia sido firmado, garantindo o direito soberano sobre as ilhas habitadas por população civil.

Dessa feita, projetos ambientais foram implantados no Atol das Rocas, em Trindade e Martim Vaz e nos penedos São Pedro e São Paulo, anuindo ao Acordo da Jamaica.


No entanto, o Direito Civil em Fernando de Noronha ainda estava sob o comando dos militares que não valorizavam os moradores. Assim, o desprezo com que os ilhéus eram tratados refletia a baixa autoestima. O direito civil de a AGUAS CLARAS operar foi obtido mediante contrato firmado com a Força Aérea, sob o comando do então Coronel Sirotheau.

Coronel da aeronáutica Sr. Marco Antônio "Sirotheau" Correa Rodrigues


Para os nativos, a AGUAS CLARAS era considerada empresa "invasora". Para reverter essa hostilidade foram necessárias várias estratégias que incluíram ensinar jovens a mergulhar e dar a eles profissão de mergulhador, reconhecida pelo SINTASA. Mas essa é outra história.


Com o sucesso da Campanha de Localização que culminou com a confirmação dos relatos de Américo Vespúcio, e com a passagem do governo militar para o governo civil em 1988, quando Fernando de Noronha foi reanexado ao estado de Pernambuco, os ilhéus passaram a ser considerados como um grupo social de invejável valor histórico-cultural.


O ORGULHO DE SER NORONHENSE

Então, o dia 10 de agosto que é quando se deu o naufrágio em 1503, passou a ser a data de nascimento daquela população até então considerada resultado do banimento colonial.

Atualmente, pessoas que migraram para Fernando de Noronha, se outorgam adicionar ao nome de batismo o adjetivo gentílico "de-Noronha" como um invejável qualificador social.


Nome de batismo é apenas o prenome e sobrenome da família, mas "de-Noronha" é valor.


Sem dúvida, a comprovação do naufrágio da Capitânia trouxe imenso valor agregado tanto à historiografia nacional, como à Arqueologia Subaquática, aos nativos e a pessoas que oriundas de diferentes locais do Brasil buscam uma identidade histórica de valor dignitário.


Essa desejada identidade histórica de valor dignitário no caso de Fernando de Noronha está relacionada ao reconhecimento da importância das ilhas na historiografia de um grupo que obteve um valor intrínseco, fundamentado na Arqueologia Náutica e Submarina.


O processo uniu a historicidade (o que construímos) à dignidade (identidade) e cidadania. .

O tema objeto dos estudo históricos e investigações das diferentes áreas garantiu os direitos humanos e o respeito cultural:


Patrimônio Cultural e Memória Coletiva

O resgate e a preservação de bens materiais, imateriais e históricos que incluíram a comunidade insular dando assim reconhecimento de sua importância na sociedade. 

Negar a história de um povo é uma forma de desumanização. Proteger as identidades independentemente das origens é essencial para agregar valor a autoestima social.

A preservação cultural impacta o bem-estar dos nativos sobre patrimônio de identidade.


AGRADECIMENTOS

In memoriam, ao meu saudoso amigo e mentor Márcio Werneck da Cunha, que abriu o caminho para o interesse e respeito às ciências históricas mas, que prematuramente nos deixou, mas nos presenteou com sua obra América de Américo que pode ser adquirida: amazon.com.br 


In memorian ao meu saudoso amigo, sócio e professor Arduíno Colassanti que me fez entender as complexas relações de uma arqueologia subaquática acadêmica comprometida com a proteção ambiental e com o patrimônio cultural submerso.


Ao doutor Professor Pedro Paulo A. Funari, a quem devo a oportunidade e a orientação nos meus primeiros passos em direção a Arqueologia Pública, reitero os meus sinceros agradecimentos e admiração.


Aos membros das minhas equipes de Arraial do Cabo, Cabo Frio, Rio de Janeiro e Fernando de Noronha que, com dedicação que excede qualquer obrigação profissional possibilitaram alcançar os objetivos históricos das operações náuticas e submarinas.


Ao meu sócio, Russel W. Coffin, entusiasta da proteção ambiental e fotógrafo capaz de enxergar e registrar detalhes da vida submersa que contribuíram para sensibilizar nossos clientes da Águas Claras e autoridades responsáveis pelas autorizações de investigações.

Russell Coffin, idealizador da Águas Claras Fernando de Noronha e Randal Fonseca, protagonista da Campanha de Localização do Naufrágio de 1503 descrito por Vespúcio


REGISTROS DOCUMETAIS E DAS COLABORAÇÕES PESSOAIS

PROJETO DE BUSCA E LOCALIZAÇÃO DA CAPITANIA DE 1503


Instituições protagonistas

  • Una Cultural – Cabo Frio, RJ

  • Aqua-Rio Centro de Atividades Subaquáticas – Cabo Frio, RJ

  • Águas Claras – Fernando de Noronha, PE

  • Fundação Américo Vespúcio – Fernando de Noronha, PE

Pessoal Responsável

  • Randal Fonseca – Mergulhador

  • Marcio Werneck – Historiador

  • Eduardo Ratton – Engenheiro

  • Fabio Troian – Geólogo

  • Henrique Fenstenseifer – Geólogo

  • Russell Coffin – Copatrocinador

Registros e Autorizações

  • Marinha do Brasil

  • Ministério do Meio Ambiente

  • Ministério da Cultura

  • Ministério da Educação – CNPq

  • Ministério das Relações Exteriores

  • Comitê para a Festa dos Dois Mundos

Pessoal operacional

MERGULHADORES DA ÁGUAS CLARAS FERNANDO DE NORONHA

Período

1983 – 1997

 Locais das investigações submarinas

Cabo Frio, RJ e Fernando de Noronha, PE

Origem

Estudos realizados na região de Cabo Frio por Márcio Werneck da Cunha, para localizar vestígios da feitoria deixada por Américo Vespúcio, com marco em Arraial do Cabo, objetivando identificar os primeiros ancoradouros – Canal de Itajuru, conforme capa da obra de Vespúcio “Carta da Quarta Viagem”, publicada na Europa em 1507.

Envolvimento

Como mergulhador e proprietário da Aqua-Rio Centro de Atividades Subaquáticas, Randal Fonseca desde 1976, mergulhou no Rio de Janeiro, Angra dos Reis, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Búzios e Fernando de Noronha.

Desdobramento

Como mergulhador associado ao industrial da Coca-Cola, Russel Wid Coffin, fotógrafo subaquático renomado mundialmente, e desde 1984 protagonista da campanha para criação do Parque Nacional Marinho de Fernando, através do comitê Pró-Parque com José Truda Palazzo Júnior e Maria do Carmo Both, adquiri 80% das cotas da Águas Claras e assumi, em 1986 a direção da empresa sediada em Noronha.

Objetivos

Para poder assumir a direção da Águas Claras, além de adquirir as cotas da sociedade, foi firmado um acordo de participação nos objetivos do comitê pró-parque, de forma a garantir a preservação ambiental que estava sendo ameaçada pelos mergulhadores afetos à caça submarina e ao turismo em larga escala – Hidroservice – Roberto Maksud.

Cenários

  1. Conjuntura Histórica

  2. Conjuntura Social

  3. Conjuntura Ambiental

  4. Conjuntura Política

  5. Conjuntura Administrativa

  6. Conjuntura Geográfica

  7. Conjuntura Econômica

  8. Logística

Institucional

Organização da Águas Claras

  1. Alvará de funcionamento

  2. Licença de armador junto à DPC

  3. Licença de pesquisa junto a MB

  4. Licença de pesquisa junto ao IBAMA

  5. Licença de pesquisa junto ao MinC

  6. Licença de pesquisa junto ao CNPq

  7. Convênios com instituições educacionais

  8. Universidade Vale do Rio dos Sinos

  9. Universidade do Estado do Paraná

  10. Universidade de Siracusa - NY

  11. Convênio com instituições governamentais e ONGs

Fundação Américo Vespúcio

  • Governo do Estado de Pernambuco

  • Administração do Território de Fernando de Noronha

  • Fundação Pró-Tamar

  • IBDF/IBAMA

  • PARNAMAR

  • Observatório Nacional

  • Fundação Garcia D´Ávila

  • COIPA - Coipa Italia S.p.A: shaping the future of Africa

  • CISP - CISP - Comitato Internazionale per lo Sviluppo dei Popoli

  • Consulado da Itália

  • Consulado da Espanha

  • AQUATER- Italian project the measurement

  • QUADRATUR- RJ

  • Pronac - MinC

  • Banco Real S/A – Ricardo Gribell

  • Brazilian Scuba and Land Tours – Mr. Bill Smith

Acordo com colaboradores invisíveis

  • Queiroz Galvão

  • Vasp – Comandante David Barioni

  • Nordeste Linhas Aéreas

  • Falcão Tour – Luiz e Maria do Carmo Falcão

  • Quadra Tour – Adília e Castilho

  • Karitas Turismo – Claudio Xavier

  • II Comar - PE

  • III Distrito Naval – RN

  • Serviço de Documentação da Marinha (RJ) - Max Justo Guedes

  • TV Globo – Jotair Assad, Francisco José de Brito

  • Cia. Vale do Rio Doce

  • Mannesmann

  • Thiesen

  • Krupp

  • Editora Abril Cultural

Identificação e Contratação de Pessoal

  • Arqueólogo subaquático

  • Engenheiros

  • Biólogos

  • Geólogos

  • Geógrafos

  • Jornalistas

  • Diagramador

  • Desenhista

  • Mergulhadores

  • Cinegrafista

  • Editor

  • Arquivista

  • Contador

  • Advogado

  • Marinheiros

  • Administradores             

  • Motoristas

  • Mecânico

  • Bombeiro hidráulico

  • Eletricistas

  • Borracheiro

  • Carpinteiro

  • Calafate

  • Pedreiro

  • Cozinheiro

  • Arrumadeira - lavadeira

  • Faxineiro

  • Pintor

  • Professores e instrutores

  • Auxiliares diversos

  • Capacitação de Mão de Obra

  • Mergulhadores 

  • Marinheiros

Aquisição de Equipamentos

  • Embarcações

  • Mergulho

  • Fotografia

  • Videografia

  • Prospecção

  • Gerador

  • Compressores de alta

  • Veículos de carga

  • Laboratórios

  • Bombas de recalque

  • Computadores (1988)

  • Aquisição, adaptação e construção de edificações

  • Administração

  • Operação

  • Almoxarifado

  • Oficinas

  • Garagem

  • Auditório

  • Alojamento

Adaptação e manutenção das embarcações

  • Aferição de equipamentos especializados

  • Atendimento a emergências

  • Cursos de especialização

  • Plano de preparação

  • Plano de Ação em Emergência

Equipamentos e materiais

  • Oxigênio

  • Prancha longa

  • Gesso

  • Muletas

  • Bandagens – Compressas


Operacional

Como se não bastasse toda a dificuldade existente no Brasil para implementar o que foi listado acima, ou seja, todas as ações para se obter os diversos documentos, pessoal qualificado e insumos, é preciso considerar que essas ações tiveram que ser realizadas na Ilha de Fernando de Noronha, um lugar (ou não-lugar) sem paralelo na história do Brasil.


Além disso, foi necessário administrar todos os atores envolvidos, e obviamente, conduzir as operações de busca, objeto primeiro do projeto. No entanto, é necessário ressaltar que havia um compromisso com as questões ambientais, visto que o local estava à mercê das investidas políticas que tinham no turismo de massa seu principal objetivo.


O Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha tem uma história à parte que, embora fosse considerado pelos idealizadores como fundamental sob a ótica da preservação ambiental e sociocultural, se tornou num imenso fardo e, ao final, infelizmente, atuou como o algoz do projeto – uma história que ainda precisará ser contada.


Questões sociais

Essas representam a maior parte dos problemas enfrentados em projetos dessa natureza.


O empreendimento de uma pesquisa arqueológica subaquática em águas oceânicas demanda uma imensidão de recursos tanto de pessoal quanto de equipamentos, veículos e instalações, portanto, não pode passar incógnita.


A contratação de pessoal envolve – sem dúvida alguma – a relação com pessoal local. Por um lado, isso é essencial sob o ponto de vista social, porém, por outro lado, os trabalhadores empregados nessas localidades demandam um investimento a mais.


Não há mão de obra especializada em nada, nem mesmo para faxina ou cozinha. Há também um problema com a carência crônica de bens que torna necessário investir muito em segurança patrimonial. Desde água e alimento até os mínimos detalhes que possam ser imaginados, passando por todo um processo de assistência à família e aos vizinhos. Todos são vizinhos, assim todos demandam atenção social e a nossa iniciativa colocou a empresa no alvo dessas demandas.


A questão social foi um fator determinante, muito maior e muito mais presente do que qualquer outro, mesmo a se considerar as adversidades atmosféricas. Ou seja a equipe terá mais problemas com os telhados dos vizinhos do que com as embarcações. Todo o ferramental e mão de obra de apoio logístico precisarão ser empregados para auxiliar a comunidade e ao próprio governo local.


Os governos de pequenas localidades e principalmente n caso de uma ilha oceânica, se ressentiu do assistencialismo que a empresa promovia, ofuscando, portanto, sob o ponto de vista dos governantes, a posição política dos gestores institucionais. A ajuda às famílias dos mergulhadores criou uma complexa rede de intriga impossível de ser evitada.

O que se constatou foi que se houver outro empreendimento de vulto ocorrendo paralelamente ao projeto de pesquisa ajudará muito a diluir a pressão social sobre a equipe.


O TEMPO DE DURAÇÃO DO PROJETO

O projeto de pesquisa pela própria natureza de investigação submarina, foi muito mais longo do que os outros, como no caso da construtora Queiroz Galvão. Assim, a tendência é que a comunidade demande mais atenção dos arqueólogos do que da empreiteira.


A mídia, principalmente a televisiva, produz um impacto controverso, mas possibilita identificar os parceiros patrocinadores e contemplá-los na telinha, por outro lado a mídia mexe com as vaidades dos locais e se torna um problema a mais a ser administrado.


Ao fazer reportagens sobre o projeto, necessário para divulgar o patrocinador, ficamos à frente e as outras instituições se ressentiram por não obterem a mesma visibilidade.


Há ainda o “mistério, o fetiche", o imaginário associado a operações submarinas.


Na construção de uma rodovia todos podem assistir o que está sendo realizado pelos intrusos, porém, as ações submersas mexem com as fantasias. O povo passa a crer que os mergulhadores encontraram tesouros que lhes pertencem. Investigam tudo. Imaginam coisas que se tornam verdade.


O advogado da equipe é um dos membros mais solicitado.


Também os vigias, visto que os furtos eram constantes. Os serviços essenciais, como água, energia, transporte, segurança, saúde e educação, ficava tudo por conta da empresa.


Não podemos esquecer que os membros da equipe trazidos de fora, se envolviam com os nativos e celebravam tanto casamentos como traições, gerando prole legítima e ilegítima.


Não era espanto quando ocorriam brigas e disputas levadas às últimas instâncias.

Contando, portanto, com um sem-número de antagonistas, podemos entender que o tempo disponível para dedicação exclusiva era um desafio.


As operações de navegação, mergulho, manutenção dos barcos e equipamentos de mergulho eram conduzidas em paralelo às adversidades candentes. É nesse aspecto que residem os alto-custos operacionais que concorrem para dificultar e muitas vezes inviabilizar uma parte do projeto, por mais bem-estruturado e respaldado que se possa alcançar.


Agentes governamentais pedem propinas, e não só isso, insistem em participar das operações náuticas, criando dificuldades operacionais, legais e de relacionamento.


Esses agentes querem aparecer na mídia e nos eventos de divulgação promovidos através de feiras, congressos e matérias televisivas. Isso cria um problema grave, visto que os custos das propinas e deslocamento dos comensais não podem aparecer na contabilidade, como também, os gastos não podem simplesmente desaparecer da conta bancária.


As operações são boicotadas pelas autoridades sempre que conseguem acompanhar o rito de processos. Assim, há que se criar dois ritos, um para executar as ações e outro para divergir a atenção dos agentes do mal. As ações falsas, no entanto, devem parecer verdadeiras, pois têm custos e produzem documentação.


As pessoas envolvidas nos processos institucionais, os funcionários públicos, chegam a reivindicar algo como salários não contabilizáveis, e sem que tenham contribuído com nada.


Eventos imprevisíveis, as emergências, precisam estar cobertos pelo seguro. Ao se operar em condições inóspitas, com mão-de-obra desqualificada, com bisbilhoteiros governamentais, sob fatores estressantes, nada pode sair errado - esse é o mandamento.


Com isso exposto, com a experiência do dia a dia, há que perguntar: o que faço aqui?

Fica a pergunta a todos vocês. Pensem que ainda há tempo para refletir e mudar o objetivo.


O GRANDE DESAFIO DE PESQUISAR O PASSADO.

A arqueologia é uma ciência social. Diferentemente do que se acreditava, a arqueologia requer tanto a capacidade de se envolver com o social do momento, quanto interpretar o social do passado. É isso que se está buscando.


Portanto, é preciso ser sensível para entender os desígnios da História e, compreender essa ciência significa assimilar valores culturais que se estabelecem a partir das estruturas formadas sobre conjunturas que variam de acordo com os contextos.


Cada contexto em que você como arqueólogo for atuar será diferente.


Eles variarão mesmo enquanto decorre a duração do projeto. No caso da Capitânia de 1503, nossa equipe assistiu diversas mudanças de contextos. Passamos da realidade de Cabo Frio, para o ambiente insular de Fernando de Noronha, que na época estava sob a gestão do Ministério da Aeronáutica. Depois, passou para o EMFA. Depois, passou para o Ministério do Interior. Depois, para o Governo de Pernambuco que, se envolveu em uma luta de titãs com o Governo Federal na disputa pelas áreas que designadas ao PARNAMAR.


Não há como atravessar um projeto de longo termo sem que processos sociais intervenham com os objetivos. Pessoal da Aguas Claras mudaram de lado. Essas interveniências ocasionaram desgastes, atingindo e ferindo outros indivíduos, direta ou indiretamente.


Com o passar dos anos, e nesse caso cerca de 30 anos, o desgaste retumbava incessantemente sobre a mente: sempre com uma mesma e antiga questão formulada diante das constatações que incluíam, mas não estavam limitadas ao fato de:

  • Não haver tesouro.

  • Não haver glória.

  • Não haver remuneração.


Como responder ao "Por que Mergulhar?"  


A resposta reside nas evidências enviadas a Sevilha em 1992. No aspecto social há a rica experiência que ao final de décadas pudemos exclamar: "missão cumprida no mergulho".

Nosso maior tesouro, e isso todos concordaram, foi a equipe polivalente que se formou.


Os estudos comparativos das ilhas oceânicas foram conduzidos com a união de esforços da Universidade Federal do Paraná, Universidade do Rio dos Sinos, Observatório do Valongo, Syracue University (NY), Quadratur, Brazilian Suba-Land Tours, e Águas Claras Produções.


Não há dúvida de que os anos passados juntos e as experiências vivenciadas resultaram em um acervo científico-operacional e existencial sem precedentes. Essa é a riqueza de valores.


Assim, um projeto de arqueologia subaquática, iniciado em Cabo Frio com base na historiografia de Márcio Werneck da Cunha e protagonizado por Randal, foi completado alcançando Fernando de Noronha, as ilhas oceânicas e a Base Alte. Ferraz. Um experiência formidável tanto para o pesquisador consciente, quanto para os que conviveram com as aventuras das descobertas, os desafios operacionais e as desventuras das perseguições (...).

ATOL DAS ROCAS - INCLUÍDO NOS ESTUDOS COMPARATIVOS.


ONDE TUDO COMEÇOU

No marco histórico de Arraial do Cabo deixado por Vespúcio em 1503.

ONDE TUDO TERMINOU

Com os vestígios da Nau Capitânia de 1503 localizados em Fernando de Noronha, e com os registros das investigações arqueológicas náuticas e submarinas enviados à Coordenação das Festividades do Quinto Centenário do Descobrimento da América, em Sevilha (1992), pelo então Ministro Sérgio Telles do Ministério das Relações Exteriores.

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